Contos e crônicas

BREVE PASSEIO NO INTERIOR

E u não deveria. Mas entrei. Num misto de angústia e ansiedade, na ânsia de redescobrir aquela alma com a qual, sem compreender o porquê, perdi o contato através do caminho. Antes me debrucei sobre a janela e, olhando o que meus olhos apenas tentavam ver, nada consegui. Ousei. Entrei.

Percorri o silêncio lentamente e dele comecei a fazer parte de tal maneira… as paredes estavam úmidas, num sinal de que a janela tinha sido aberta há muito pouco tempo. O chão, para meu espanto, parecia não existir. Eu flutuava, quase numa latência estranha. Mais meus pensamentos avançavam do que meus próprios passos.

Segui a trilha pelo último e luminoso ser ali deixada. E, qual surpresa a minha, estava ele silente e nem os olhos erguia. Como se tivesse adentrado a um outro universo, apenas confabulava consigo mesmo. Ouvia a voz do seu pensar ativo, saboreava a imagem diante de mim. Mas não ultrapassava a linha invisível. Não era quem eu esperava encontrar… quem era? Eu o conhecia, certo. Mas o invólucro nada tinha a ver com o buscado, pois havia uma cortina descerrada e propositadamente colocada. Ainda assim, minha satisfação conseguiu ser muito, muito maior.

Quando ainda de longe, na dúvida intransigente do entrar ou não, eu observara de longe, havia visto as paredes sólidas, a escadaria sem acesso, o edifício grandioso a esconder-se por entre outras paisagens, de tal forma que se tornara quase totalmente distante da visão humana. Para ali chegar tive de optar por vários caminhos, pela noite ou o dia, retirar árvores jogadas no chão como empecilho certo para impedir os inoportunos.

Nada adiantou. Como minha certeza era grande, continuei impávida e venci a distância, os medos, as ameaças internas e externas. Minha certeza consistia unicamente no saber que aquele ser ainda poderia querer as mãos que somente outra alma tão antiga quanto a sua, poderia lhe oferecer sem jamais cobrar.

Dentro, o caminho trilhado, os olhos postos sobre a figura postada diante do inconfigurável, pude sentir o quanto não desejava mais sair. Certo, era diferente. Certo, não era eu uma presença exatamente solicitada. Mas ao risco de nada fazer, fiz. Sentei-me e fiquei a observar, a esperar.

O tempo inexistente não me propunha pressa. Ali estava ele e bastava. Sabia que poderia ficar ali até o até nada ser. Mas ele subitamente ergueu os olhos e os dirigiu a mim. Não tinha medo, nem me censurava. Analisava a possibilidade de permitir-me ultrapassar a linha. Não sorria, não falava. Pensava se seria possível deixar-me acompanhar suas mudanças e andanças.

Num instante sereno, revi a alma companheira…sorri. Tinha a sensação da noite sem lua e estrelas, a sensação do invasor pego em flagrante, aguardando a pena que lhe seria infringida.

Quanta, quanta coisa senti vontade de falar, gritar! Quantos gestos meus pediam direção! E eu ali, muda, estática, cega pela insensatez do óbvio: não existia mais a janela e nem sequer vontade de retorno. Enquanto ele ali estivesse, eu permaneceria.

Lá for a, ouvia o tilintar da chuva como um choro meigo. E como único elo com o exterior, era ela a música serena a me apaziguar a culpa.

Ah!… se eu tivesse idéia… se ao menos pudesse ter imaginado as consequências…! Agora o tempo havia fugido e as distâncias tinham partido juntamente com quaisquer linhas. Olhos me olhavam diretamente, mãos me seguravam com a força desconhecida pelos estrangeiros daquele lugar. E que importância, se estas mãos já haviam antes me segurado e amparado, já me haviam enlaçado e sabiam que eu lhes pertencia. Embora eu não chorasse, lágrimas desciam face abaixo e me davam a sentir a chuva. Eu estava chovendo.

 

Imagem by Unsplash

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