Desvarios

CERTAS SAUDADES E OUTROS

SAUDADES

É bem verdade que por causa da saudade talvez possamos deixar de ver coisas que estão passando em baixo do nosso nariz e de apreciar outras que passam despercebidas sob nossos olhos ocupados e nossas mentes sonhadoras. Mas não se negue também que a saudade é o traço feliz de união que nos permite existir bem hoje por ter bem existido ontem também.

Afinal, não se sente saudades de fatos ruins, não é mesmo?

 

CERTAS SAUDADES

Certas saudades criam-se no peito em silêncio e a gente sabe que elas estão ali, esticando seus galhos, suas folhas… mas tentamos fazer de conta que elas não existem. Fingimos que é possível conviver com elas, viver sem a causa delas, ir adiante sem buscar sanar a ferida causada por elas.

Certas saudades são fortes porque pouco se pode fazer para se livrar delas… talvez mesmo nada… a não ser deixar a vida fazer o que tiver que fazer pedindo baixinho para que ela não nos abandone a nós mesmos.

 

 NÃO QUERO PENSAR

Que ninguém venha me dizer coisas sobre o cansaço. E nem sobre a dor. Ou mesmo sobre perdas ou fracassos. Hoje sobre os meus ombros já pesa uma idade que não me pertence ainda e que nem sei se um dia me pertencerá. Mas sinto na respiração ofegante e nos passos sem rumo que envelheci séculos.

Me deixem em paz! Vou sentar num canto e descansar os olhos quase cegos. Não quero falar, não quero ouvir, não quero pensar. Preciso me reconciliar comigo mesma.

 

 

TEM QUE TER ERRO

Nada é cem por cento certo. Nem ninguém. O erro tem que existir. É uma necessidade. Para nos mostrar o caminho para a perfeição. Para nos lembrar que poderíamos obter a perfeição. Para nos fazer sonhar com a perfeição. Para criar a inveja pelo que cremos perfeição.

Ainda bem que tem erro. Senão seríamos somente sombras de nós mesmos.

 

JOGOS DE AZAR

E mesmo se ela insiste em me perseguir meu olhar será mais profundo. E mesmo se ela persiste em me seguir, meu querer será mais forte. Por mim mesma serei o mundo. Jogarei e ganharei mesmo sem sorte.

 

 

E NEM ERA PRA SER

E nem era pra ser hoje o dia de doer tanto. Hoje que recebi fotos que desde manhã me fizeram tão feliz! Hoje que foi um dia tranquilo… um dia sorridente… lá no fundo ela vinha vindo, cercando minha cabeça de espinhos, fincando, espetando, mostrando o quanto podia ser mais forte que eu.

Tentei ser mais. Tentei prestar atenção no azul do céu, no sabor de uma comida leve, numa gargalhada após uma boa piada. Tentei ser eu duas vezes mais. E ela cerrou ainda mais forte seus dentes contra mim. Baixei um pouco a guarda, engoli duas pílulas de tristeza. Com a esperança de vê-la partir.

Tudo em vão. Mais que em vão. Ela encarcerou a minha mente em sua maldita cela de horror. Agora só saio daqui quando ela quiser.

 

ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM

Sou uma pessoa cheia de bom humor. Mas quando a enxaqueca ronda fico assim. Chapeuzinho vermelho esperando…esperando que não venha, que não chegue, que não permaneça.

De esperança ainda se vive né?

 

 

A NOITE SE VAI

.. e as sensações ficam. Principalmente quando o corpo significa pouco e alma tudo.

 

EXISTIR A ESSÊNCIA

E não bastando ser, simplesmente existir, é necessário ser a essência de qualquer coisa. Viver por alguém sem deixar de viver a própria vida. Dedicar de si ao mundo em volta como se fosse ele o que circula de dentro de si. Existindo assim a essência, toma-se a vida com as mãos e o coração pulsa para ainda mais viver. Existência.

 

AS PALAVRAS E O ANEL

Eu respiro o ar. E expiro as palavras. Escrever é a minha vida. Sem estes instantes preciosos não consigo existir. Sou como o aro vazio do anel que aguarda a pedra que fará dele um objeto único.
Espero as palavras e elas me esperam. Em certos momentos nossos encontros são rápidos, em outros chegamos a cair tamanha a colisão.

 

O ESQUECIMENTO

O esquecimento é fatal e cruel. O esquecimento é abençoado e pedido. O esquecimento. Fazemos de tudo para esquecer certas passagens de nossa vida. Fazemos tudo para não esquecer outras delas. Mas o esquecimento natural vem e liberta, seja trancando lembranças nos porões no inconsciente ou soltando ao vento coisas desnecessárias. O esquecimento é o remédio do tempo. E o tempo é o remédio da vida.

 

O EXÍLIO

Uma linha tem duas pontas. O que há no meio delas não pertence a ponta alguma e nem é ponte. O meio da linha, sem a impertinência das pontas, apenas permanece. Mas é impermanente que se situa. Exilado das pontas que se encostam e amarradas pertencem a outro mundo.

 

Imagem by Vika 04

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