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A HIBRIDIZAÇÃO DE GÊNEROS NA OBRA DE JACQUELINE AISENMAN

Elis Regina Melere¹;  Gisele Giandoni Wolkoff²

Publicado na revista eletrônica Linguagens e Interfaces – Vol 1, 2014

Introdução

Jacqueline Aisenman é brasileira nascida em Laguna – Santa Catarina, porém mora em Genebra, Suiça, desde 1990. Com os sites Varal do Brasil1 e Coracional2 e o blog Certas Linhas Tortas3, Jacqueline trabalha e divulga seus textos fazendo uma ponte entre Brasil e Europa, difundindo a língua portuguesa e sua literatura nestes continentes.

A autora Jacqueline aborda diversos assuntos em seus textos literários, entre eles amor, atualidades, tecnologia, faz intertextualidade com diversos outros textos como Fausto de Goethe no texto Fausto (AISENMAN, 2011), as princesas Branca de Neve e Cinderela dos clássicos infantis no texto Personificação (AISENMAN, 2011), entre outros, e momentos da vida do ser humano atual e como a própria autora escreve em seu livro Briga de Foice

(AISENMAN, 2012) são “histórias, algumas com fundo de verdade e outras que visitam minha imaginação e a alheia. Histórias que vêm acompanhadas de frases que soltei ali e aqui.” (p. 17) A partir destes temas, podemos relacionar a identidade destes escritos ao sujeito sociológico que modifica-se perante a presença de outro, percebido no texto “Tatuagem” no livro Lata de Conserva (AISENMAN, 2011, p. 107), mas que ainda contém muito de si como no texto “Os Fantasmas Passeadores” também na obra Lata de Conserva (AISENMAN, 2011, p. 116).

Metodologia

Este artigo procura, através de uma pesquisa bibliográfica dos livros de Aisenman, enfatizando a obra Lata de Conserva (2011), analisar sob diversos aspectos os temas tratados pela autora neste livro, sendo eles temas universais como amor, saudades, tristeza, mas também temas atuais e tecnológicos retratando a sociedade atual. Explora-se a questão da hibridização dos gêneros e também a hibridização social. E, ao analisar a questão da hibridização de gêneros e temas, também torna-se necessário incluir e indagar sob a questão da identidade no mundo moderno, sob o viés, principalmente, do teórico cultural Stuart Hall no livro A Identidade cultural na pós-modernidade (1998), abordando questões como o indivíduo e a identidade fragmentada e o indivíduo e as diversas identidades que o compõem, procurando estabelecer e esclarecer os vínculos entre o tema, a hibridização de gêneros e a identidade do indivíduo na pós-modernidade.

Discussões

Diferentemente daquilo que o filósofo Aristóteles (1999) definia como gêneros literários: a divisão dos mesmos em narrativo ou épico, lírico e dramático, Jacqueline mistura os gêneros e diversifica muito a configuração de seus textos, alguns sendo poucas linhas, outros, um pouco maiores. No livro Lata de conserva (AISENMAN, 2011), foco do estudo deste artigo, os textos, em sua grande maioria, são extremamente curtos, atingindo poucas linhas como “Chances”, “Comer e saborear” e tantos outros. Há algumas exceções neste livro como os textos “Personificação”, “Conceituação” e outros que atingem até duas páginas.

                                                        

  • Varal do Brasil: http://www.varaldobrasil.com/
  • Coracional: http://www.coracional.com/
  • Certas Linhas Tortas: http://certaslinhastortass.blogspot.com.br/

1

¹Acadêmica do curso de Licenciatura em Letras Português – Inglês da Universidade Tecnológica Federal do

Paraná – UTFPR, Pato Branco, Paraná, Brasil. – e-mail: lys_reginna@hotmail.com

² Professora Dra. do curso de Licenciatura em Letras Português – Inglês da Universidade Tecnológica Federal do

Paraná – UTFPR, Pato Branco, Paraná, Brasil. – e-mail: gwolkoff@gmail.com

 

A hibridização de gêneros acontece, pois cada gênero possui características que, de acordo com o artigo O processo de hibridização dos gêneros discursivos na obra Água Viva de Clarice Lispector das autoras Valdicléa Souza e Vânia Lúcia Menezes Torga (2008) revelam “sua natureza transmutável que, por sua vez, torna acessível a possibilidade de hibridização”, sendo que um gênero sempre carrega um pouco de outros em si. De acordo com Dominique Maingueneau em seu livro Tendências em Análise do Discurso “os gêneros encaixam-se, freqüentemente, uns nos outros” (MAINGUENEAU, 1997, p. 35) e “um mesmo texto encontra-se geralmente na intersecção de múltiplos gêneros” (MAINGUENEAU, 1997, p. 35). O que Maingueneau afirma nestes trechos é que a hibridização de gêneros encontra-se mais presente e visível que se imagina, sendo que a divisão de gêneros definida por fins educativos ou outros fins, não apresenta-se deste mesmo modo quando vistos e estudados em um conjunto. Outros autores como Luci Collin, Eloésio Paulo também se utilizaram do recurso de hibridização de gêneros que Jacqueline Aisenman nos apresenta em seu livro Lata de Conserva (2011) como lemos em Fausto (AISENMAN, 2011, p.130), Porções (AISENMAN, 2011, p.65), Facetas do Abandono (AISENMAN, 2011, p.63). 

Esse processo de hibridização dos gêneros acompanha e traduz a mudança da identidade cultural, que segundo o autor Stuart Hall no livro A identidade cultural na pósmodernidade corresponde a “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno” (HALL, 1998, p. 7), concordando com o autor David Block que escreve em seu livro Multilingual identities in a global city: London stories que a “identidade não é vista como algo fixo para a vida, mas como fragmentada e contestada na natureza.” [1] (BLOCK, 2006, p. 26) Portanto, os gêneros literários também já não são mais os mesmos pois, assim como a linguagem, estão em constante modificação.

Ao analisar e comparar alguns textos da obra Lata de conserva (2011) percebem-se estas características de hibridização de gêneros e as mudanças culturais que atingem o indivíduo. Em “Chances” (AISENMAN, 2011, p.112), a autora retrata, em cinco linhas, os temas universais esperança e amor. Há, neste texto, elementos nem sempre convencionais a literatura, como a porcentagem e a probabilidade, que geralmente são ligados ao mundo matemático. “Chances” apresenta discurso direto e o narrador classifica-se como narradorprotagonista, que segundo D’Onofrio é o “eu […] que vive os fatos. Trata-se de um ator que acumula o papel de sujeito da enunciação e de sujeito do enunciado” (D’ONOFRIO, 2007, p. 53) percebido no trecho /“Cem por cento de chances. Dela. Ou minhas.”/ (AISENMAN,

2011, p. 112)

“Comer e saborear

Ela usava batom e tinha saboreado morangos. Ele usava uma carteira e tinha comido carne. Ela o tinha nas mãos. Ele a tinha nos bolsos. Ambos usufruíram da refeição.” (AISENMAN, 2011, p. 120)

No texto citado acima, há um tema atual como o amor por interesse pelos amantes e não apenas pela família, como era feito há algumas décadas atrás em que a família era responsável por encontrar o cônjuge para suas filhas e estas deveriam casar-se independentemente de amá-lo ou não, e também o sexo como fonte apenas de prazer. Há neste texto, o discurso indireto, já que as personagens principais são tratadas pelos pronomes ela e ele, e o narrador é onisciente intruso que segundo D’Onofrio é o narrador que “tece considerações e emite julgamentos de valor.” (D’ONOFRIO, 2007, p.52) percebido, especialmente, neste trecho “Ela o tinha nas mãos. Ele a tinha nos bolsos. Ambos usufruíram da refeição.”

O texto “Personificação” (AISENMAN, 2011, p. 56) possui quatorze linhas e nele percebe-se a intertextualidade com os contos de fadas, porém, no trecho que encerra o texto: “Pensando bem, era melhor ir embora. Toda esta incomodação só para dançar. Preferia ir para casa e ver televisão.” (AISENMAN, 2011, p. 56), nota-se um elemento que nos contos de fadas clássicos não existe que é a televisão. Este texto possui, assim como “Chances”, narrador-protagonista e pode-se verificar isto quando o narrador diz que “Entrou no salão e parou. Olhou para os lados, nada. Ele ainda não tinha chegado. Na dúvida de ficar plantada lá, como uma flor sem viço, resolveu voltar à infância…” (AISENMAN, 2011, p. 56)

Com onze linhas, “Conceituação” (AISENMAN, 2011, p. 58) apresenta o tema ainda muito atual, mesmo que abordado em décadas anteriores, a prostituição. Analisa-se que, assim como “Comer e saborear”, há o discurso indireto e o narrador é onisciente intruso, percebido no trecho “Preconceituosos ou amedrontados com sua espontaneidade, deixavam que a rua e seus trajes a definissem.” (AISENMAN, 2011, p. 58)

Como Hall aborda em seu livro,

 

Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. (HALL, 1998, p.9)

 

 Percebe-se que essa mudança estrutural tratada por Hall, é clara neste livro de Aisenman, pois o sujeito encontra-se em uma sociedade modificada na qual se está em constante atualização e em um mundo globalizado, o sujeito altera-se de acordo com as modificações sociais e espera que o restante também siga estas alterações. De acordo com Hall,

O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. (HALL, 1998, pag. 13)

 

O que explica, parcialmente, a escrita de Jacqueline, que se apresenta poética, porém em prosa, não se trata de versos nem de romances, porém contém ideias, pensamentos e sentimentos condensados em sua escrita os quais retratam diversos momentos da vida humana, coincidindo com o que pensam, sentem e articulam diversas pessoas sobre as suas exigências em um tom de escrita existencialista.

Se para Maingueneau  se há gênero a partir do momento que vários textos se submetem a um conjunto de coerções comuns e que os gêneros variam segundo os lugares e as épocas, compreender-se-a facilmente que a lista dos gêneros seja, por definição, indeterminada. (MAINGUENEAU, 1997, p. 35)

 

Considerações Finais

Podemos pensar que a identidade e a hibridização dos gêneros nos escritos de Jacqueline encontram-se interligados, já que por nos encontrarmos no período literário na era pós-moderna, tem-se a necessidade de buscar-se o novo, o diferente, e pelo mesmo fato de estarmos na pós-modernidade, o indivíduo encontra-se em contato com diversas culturas, várias línguas e apresenta-se fragmentado, apresenta-se do mundo, assim como os textos escritos neste período.

A influência de diversas sociedades umas nas outras fazendo-as multiculturais e pós-modernas traduz a pluralidade de formas e temas que cabe aos indivíduos contemporâneos. Verificamos ao longo das leituras efetuadas até o momento que a autora, por toda sua vasta obra, apresenta-nos um gênero híbrido, que mescla a prosa, a poesia, o drama, mas que não se atém aos gêneros e estilos previamente definidos e delimitados pela crítica literária tradicional – por exemplo, a prosa poética. O nosso trabalho foca na produção marginal e que é capaz de produzir inovações verdadeiras no discurso literário e das artes. Jacqueline Aisenman não se furta a isso. Ao contrário, é um exemplo de como a margem passa a ocupar o centro, pelo o que se dispõe a fazer, a partir da sua proposta literária.

 

 

Referências

 

AISENMAN, J. Briga de foice. Jaraguá do Sul: Design Editora, 2012. Nº 222 p.

AISENMAN, J. Lata de conserva. Jaraguá do Sul: Design Editora, 2011. Nº 141 p.

BLOCK, D. Multilingual identities in a global city: London stories.  Nova Iorque:

Palgrave Macmillan, 2006. 248 p.

D’ONOFRIO, S. Forma e sentido do texto literário. São Paulo: Ática, 2007. 328 p.

HALL, S. A Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. 102 p.

MAINGUENEAU, D. Tendências em análise do discurso. São Paulo: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 3ª ed. 1997. 198 p.

SOUZA, V. et al. O processo de hibridização dos gêneros discursivos na obra Água Viva de Clarice Lispector. Cadernos do CNLF, v. XIV, n. 2, t. 2. 2008. Disponível em < http://www.filologia.org.br/xiv_cnlf/tomo_2/1379-1402.pdf >. Acessado em: 16 nov. 2013.

[1] “Identity is seen not as something fixed for life, but as fragmented and contested in nature.” Traduzido pelas autoras.

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