Contos e crônicas

OUVINDO COISAS

Há muitos anos, antes de eu vir morar em Genebra, estava trabalhando como Diretora do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de Laguna. Um dos projetos que criei na época e que estávamos levando adiante (que equipe boa a minha na época!) era o resgate cultural junto às pessoas idosas vivendo no interior de Laguna a fim de conseguir tentar resgatar velhas histórias do nosso folclore.  Não posso contar a vocês como eu me sentia feliz a cada visita que fazíamos no centro e nas localidades interioranas de nossa boa e velha Laguna. A hospitalidade daquelas pessoas, o café com bolo de milho ou com rosca de porvilho…. Está tudo aqui estocado para sempre no meu coração.

Um dia conversei com uma senhora já de idade avançada. Ela contava um fato ocorrido no centro de Laguna nos idos anos da década de 40.

“- Eu tinha os meus filhos bem pequenos. Um dia, bem na hora em que nós estávamos tomando café da manhã, senti que a mesa estava tremendo. As xícaras balançaram, o lustre também, tive até impressão que a parede estava se abrindo. Foi um Deus nos acuda. Eu juro, foi coisa de uns segundinhos, mas foi horrível. As crianças gritavam e eu nem sabia o que fazer!”

Emocionada, ela colocou as mãos sobre o rosto antes de continuar.

– “Na época teve, se não me engano, duas pessoas que se jogaram da janela do Hotel Rio Branco. Teve gente que pensou que era tontura, mas teve outras que ficaram tão apavoradas que até passaram a noite na rua pensando que o mundo ia acabar. Coisas assim, a senhora sabe, bem do pessoal da época… mas depois a gente ficou sabendo que foi um tremor de terra e nunca mais se ouviu falar daquilo por aqui.”

Numa outra vez, comendo broa de milho e um bom copo de café depois de ter corrido de todas as galinhas e feito amizade com alguns cachorros, conversei com uma senhora lá perto da Barbacena, muito faceira, mas, desde que pedi pra contar os “causos”, logo me disse: e a senhora lá acha que depois isto não vai cair aqui em casa? Não jurei. Mas disse que não, que sua boa vontade ia ser maior do que isto. Ela aquiesceu, me serviu mais café e disse: só um. E começou:

“- Não é lenda. E nem é só causo. É verdade verdadeira. A minha avó que contava já pra nós aqui em casa. Diziam que se uma criança começava a cair, ficar abatida, cada vez mais doentinha, magrinha, então não tinha outra: era coisa de mau olhado de alguma bruxa da vizinhança. Minha vó tinha uma vizinha que tinha mais de dez filhos e a mais novinha caiu doente. Tão ruinzinha que médico nenhum dava jeito. Já tavam desenganando a menina. Aí um dia apareceu na casa da mulher uma velha que olhou a menina de perto e disse: é olho de bruxa! Todo mundo na casa se assustou, mas ela falou que tinha um jeito de salvar a pobrezinha: tinha que fazer a bruxa ficar tão braba que viesse até a criança. Daí, quando ela chegasse, o encanto ia se quebrar. Ela ensinou pra mãe da menina: pega uma camisinha da tua filha, enche de alfinete, deixa toda espetada e coloca num pilão e fica socando, socando, socando o quando der. A bruxa não vai aguentar, ela vai ficar tão agoniada que vai aparecer. A vizinha da minha vó não criou coragem pra fazer aquela coisa esquisita… mas a filha mais velha dela sim. E fez. Pegou a roupa da criança, encheu de alfinete, pôs no pilão e largou a socar. Nem demorou tanto assim, apareceu em casa uma tia delas, debruçou-se na porta da cozinha que era de meia (duas partes) e ficou a espiar sem falar e nem cumprimentar. Aí viu a mocinha no pilão. Então começou a dizer um monte de coisas de uma vez só, dizendo que pilão era pra comida e não pra ignorância, um absurdo. No final das contas ela ficou tão irritada, comprovando o que a velha havia dito, que acabou avançando na mãe da criança doente. Jogaram ela pra fora da casa e dizem que depois disto ela se foi e nunca mais apareceu. E a menina sarou. Sarou e cresceu.”

Causos como estes nós temos tantos… Somos tão ricos no nosso folclore… Mas precisamos nos dar conta que as pessoas que nos podem contar estão partindo. O tempo, neste caso, voa bem mais do a luz… E se só nos sobrar a boa vontade, será preciso correr…

 

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