Contos e crônicas

O PROFESSOR, A FÍSICA E O SÍLVIO SANTOS

Naqueles que eu chamo de longínquos tempos de adolescência, muitos foram os momentos que marcaram. Definitivamente. Aqui vai um deles.

Nosso professor de Física vinha de Florianópolis para Laguna especialmente para nos dar aulas. Claro que na época fazíamos algum esforço para compreender o seu sacrifício pela educação de alunos que eu não chamaria de selvagens, mas de reticentes… E todo esforço que podíamos fazer se acabava junto com a vontade de acordar aos sábados (sábados!) para começar as aulas exatamente às sete e meia da manhã. Não, adolescentes que me lêem, vocês não estão sonhando. Sim, pessoas com um pouco mais de idade do que eu que estão lendo agora, é a pura verdade.

E vocês, colegas, lembram?  O professor Sérgio Nacif vinha de Florianópolis legar seus conhecimentos aos seus alunos conterrâneos! Sorte dele e nossa é que, no instante em que ele dava a aula por iniciada e desta forma começava então as viagens através da Física, o mundo  lá fora perdia o interesse trivial e ganhava um interesse novo. O mundo que ele nos trazia através de suas palavras, de suas experiências, comparações, tudo era tão cheio de importância que a gente esquecia que estava numa sala de aula. Esquecia o horário, o sábado e até o fato de que eram três aulas seguidas. Algumas vezes quatro. Eu bem que disse… E é verdade.

Perdi o medo que eu tinha de trovões durante suas aulas. Chovia forte, raios e trovões me faziam pular da cadeira. Não sei se ele notou ou não. Mas sei que naquele dia grande parte de nosso curso foi sobre o assunto. Saí de lá com pose e suficiência para mim e para dividir (bem mais tarde, meus filhos pequeninos e eu, só mãe, dizendo: “… então, se a gente tá escutando este barulhão é porque o raio já caiu bem longe de nós, viu!”).   Nesse mesmo ano Laguna entrou na famosa competição Cidade contra Cidade, qualquer coisa assim, lá do Sílvio Santos. E eu, como não perdia uma oportunidade de ganhar o meu ajudando aqui e ali (e se pudesse ainda aproveitando a novidade!), fui fazer extras na Prefeitura. Estas últimas palavras significando ajudar uma equipe estabelecida de pessoas a achar tudo o que fizesse Laguna ganhar a competição. E lá ia eu. Claro, assim também acabei indo ao programa do próprio Sílvio Santos a cada vez, o que equivalia a perder as aulas de sábado…

Do programa tenho várias histórias para contar (o meu pai e seu monstro da lagoa – esta, eu juro que eu conto depois! – e seu papo de mais de meia hora com o dono do programa – papo este que não foi ao ar e que deixou os técnicos em desespero: “Seu Sílvio, tá na hora! – Sei, sei, mas me então…” E por aí foi o papo longamente entre o homem e meu pai enquanto riam; Sílvio Santos que queria me colocar pra concorrer no meio das meninas: – Tira aquela ali e bota esta aqui que está ajudando. Como que não dá?; minha bolsa que desapareceu no momento dos aplausos e etc.). Mas a melhor de todas, vêm de quando Laguna foi, que pena! desqualificada lá pela terceira vez de sua já famosa participação no Cidade Contra Cidade. Eu então, mais do que naturalmente, voltei em direção à sala de aula do CEAL para nossos matinais sábados de Física. Qual não foi minha surpresa ao ser recebida pelo professor Sérgio com um grande sorriso e em seguida as frases que me “colariam” na carteira até o fim do ano letivo:

– Miss Laguna! A que devemos esta honra? Acabaram-se os compromissos? Não tem mais nada de mais importante pra fazer na cidade e nem fora dela? Então bem-vinda! Espero que goste das aulas e fique conosco até o final do ano!

Ele nunca mais tocou no assunto. E eu batalhei para ser o que ele esperava de mim: uma excelente aluna e não somente qualquer “miss”. Se consegui não sei, mas terminei bem o ano e, mais do que as boas notas e os conhecimentos de Física, guardo ainda hoje o ser humano dentro de mim. Ele e os seus sábados terrivelmente matutinos que hoje me fazem sorrir…

 

Como este texto tem data anterior a 2010, publico nota de 2015: O Professor Sérgio faleceu em abril de 2015. Deixou saudades, com certeza!

 

Imagem Blog do Valmir Guedes

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