Desvarios

SEMPRE CHUVA E OUTROS MAIS

SEMPRE CHUVA

Por mais que a gente goste de sol, sempre se precisa de um dia de chuva. Pra poder olhar pela janela e apreciar as gotas caindo, sentir o cheiro da terra subir e voltar a amar certas coisas esquecidas. Ou talvez para se jogar pela ruas, deixar o corpo molhar na chuva fria, esquecendo a cabeça esquentada pelo sol das conveniências…

 

AVIDEZ

 

O prazer da carne que é negado e sucumbido. O prazer recatado e poucas vezes retribuído. O prazer que invade a pele e adentra a epiderme fingida para não mostrar os arrepios. O prazer incontrolável de fechar os olhos e buscar com as mãos um outro corpo. O corpo que já vive na imaginação fremente e delirante. O prazer insaciável que transtorna o corpo e amolece as pernas. A comoção de se sentir de um instante para outro ressuscitado dentre os mortos. O prazer de compartilhar o prazer. De doar o prazer. De abrir os olhos e sentir o prazer. Para finalmente descobrir que haviam dois seres. Antes incompletos, agora completamente um.

 

O SONO

O corpo que se abandona ao sono, abre as portas entre dois mundos. Os olhos fechados vêem duas vezes mais. Os ouvidos ouvem… ouvem…

 

LÁBIOS CERRADOS

Fechados, os lábios nem se inquietam. Sorriem. Sabem já que tudo o que houver para ser dito não será por eles que virá

 

ACOSTUMAR OU NÃO

Agora cala. Me deixa aqui comigo. Tua falta de silêncio é um distúrbio ao qual não quero me acostumar. Me acostumo com o vento, com os pássaros, o andar leve das nuvens, os pingos da chuva e os raios mais furiosos… mas tuas palavras incessantes e incongruentes definitivamente estorvam o mais lindo dos momentos que eu poderia ter contigo.

 

FENDAS

Que força, que movimento, que energia, o quê, em suma, faz jorrar de dentro de nós palavras que poderiam para sempre permanecer pensamentos? Por que sentimos necessidade de extravasar o que poderia permanecer para sempre como um hiato platônico. Ou mesmo… ainda menos… nem mesmo reflexões, mas simples emoções no fundo sentidas e nunca, jamais explicadas ou faladas. Há circunstâncias verdadeiramente incontroláveis… indomáveis… e para elas sempre haverá uma primeira vez.

 

IMPRESSÕES

Aqui deitada, há gestos que saem de mim tão naturalmente que, como se eu observasse do exterior, tenho quase a certeza de que não sou eu. E junto com os gestos, as palavras, as sensações. Déjà vu. E há não muito tempo. Também num quarto de hospital.

 

A PERFEIÇÃO DOS MISTÉRIOS

Abram os ouvidos para os universos. Deixem que os lábios descansem. Escancarem o coração para este instante sem nenhum outro barulho ou voz: deste sossego hão de sorrir mistérios… mistérios de paz.

 

ZEN

Algumas horas me separam do dia de amanhã. Não vejo sol ou chuva e nem sei das temperaturas interiores ou exteriores. Quando tento pensar vem um vazio, uma sensação de nada, de tempo perdido. Fico imaginando como seria saltar o dia e chegar, sem rumo, diretamente no próximo. Sem memória também. Sem remorsos. Sem dores. Sem tumultos. Apenas zen.

 

DA VOZ

E num movimento diáfano, ao fundo uma melodia escolhida, novamente surgirá a voz. E outra voz. E as vozes se cruzarão novamente e delas nascerá um colóquio de amor.

 

 

TONS DE VOZ

A mesma agonia que há nos gritos está calada, a espreita, deleitada no silêncio. E há palavras que por mais alto que sejam ditas jamais atingem os ouvidos aos quais se destinam. Portanto, certos silêncios são tão ensurdecedores que mesmo alguns passantes, pela vida ou pelas páginas, hão de sentir-se tocados, flagrados, doídos, atingidos, amados, batidos, provocados… Tudo neste mundo depende da tonalidade. Seja a cor ou seja o som. Seja a paz ou seja a voz.

 

COISA ESQUISITA

De alguns senti a ausência. De outros, a presença. Até na hora na da nossa morte. Amém.

 

SEM MÁSCARAS

Hoje eu quero ir me deitar nua. Fechar os olhos, descansar os ossos e a mente. Acordar amanhã com a cara mais lavada. E nunca mais sequer me pentear…

 

Imagem by Sergey Kukota

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