Contos e crônicas

NUMA SECA MANHÃ

Numa daquelas semanas secas, num daqueles dias secos, naquela nordestina e seca cidadezinha, os primeiros sinais políticos começavam a aparecer. Aliás, depois de algum tempo de recessão, a corrida dos votos vinha ainda mais esquentar a região, logo aquela região, tão carente de uma chuvinha.

E foi justamente o Dr. Severino Manoel Santo, consagrado candidato de inesquecíveis eleições anteriores que, junto a mais alguns “homens do povo”, resolveu dar início às “festividades”. Sim, porque tempo de eleições era uma verdadeira festa, diga-se de passagem, para os candidatos, que assim extravazavam suas frustradas vocações para oradores.

O domingo pacato ouvia as últimas badaladas do sino da Igreja, avisando o término da missa. os fiéis, após abraçarem-se a mais um fio de esperança, saíam a conversar dispersos pela rua poeirenta.

Padre Cacildo, mal começara a arrumar seus apetrechos quando sentiu um pesado tapa nas costas. virou-se imediatamente e deu de cara com enorme sorriso.

– Como vai Padre Cacildo? Bela missa a de hoje, esplêndida! O senhor realmente fala muitíssimo bem!

Ante aquela evidência de amizade meio repentina, o ainda surpreso padre sorriu desajeitado.

– Ora essa, Dr. Severino, bondade sua. A gente faz o que Deus acha de mais certo…

– Deixa de modéstia, homem! – outro vigoroso tapa nas costas do não vigoroso padre – Imagina só que olhando o senhor falar daquele jeito me deu até vontade de incluí-lo no meu Partido…

– Eu?!!!

– Mas é claro! Até que acendeu uma luz aqui dentro desta minha cabeça… Olha só, daqui a pouco irão começar as palestras, o senhor sabe, as eleições estão perto e eu não posso falhar!

– Sim, “seu” Severino, estou ouvindo. E de que forma o senhor iria querer a minha ajuda?

– Bem, presta atenção Padre Cacildo, que esta minha idéia vai ser a sua glória: o senhor sobe lá no palanque e me anuncia. Com todo o seu “porte fino”, com as frases “chiques” que o senhor sabe usar. Assim, o pessoal vê que Deus tá do meu lado… e afinal, além da sua glória em particular, a Igreja vai lucrar muito, eu sempre fui bem generoso…

– Mas era o que faltava, ô meu Cristo! E porque o “Dr.” não vai lá sozinho? Isso de eu ir lá não vai ficar muito bem não. Além do mais eu não sirvo para apresentador de ninguém. Meu dever é com a Palavra de Deus e nada mais.

– “Seu” padre, eu já disse. É caso de ser anunciado, para ter a fé do meu lado. O senhor não vai nem piscar o olho e pronto!, tudo bem!

– Pois não vou nem piscar o olho mesmo! Ah, não! O senhor vai me desculpar, mas esse negócio de política eu prefiro nem me meter. Se Deus quiser, no Céu futuramente vou participar de alguma coisinha, mas aqui, aqui!, com toda esta loucura, não mesmo!

– Mas é preciso, criatura de Deus! Um discurso com introdução fica melhor apresentado. E eu tenho certeza que os outros candidatos nem vão lembrar de fazer uma coisa assim tão bonita. Eu vou ser um… quer dizer, nós vamos ser um sucesso!

– Então eu não sei? Daí o senhor sobe lá no palanque, tira o chapéu, faz uma cara de cachorro que não vê osso depois de um tempão, dá um sorriso bem amarelo e começa a falar aquela mentirada boca afora e…

– Péra aí, péra aí Padre Cacildo, assim eu…

– Péra aí coisa nenhuma. Eu sei muito bem até o que o senhor vai dizer depois. Vai prometer que assim que for eleito vai até um centro grande, para trazer uma coisa química que faz chover. E aí então, dirá que tudo vai ser uma maravilha, o gado vai até inchar de tão gordo e a plantação vai crescer pelas vias do céu!

– Ora Padre, essas coisas tem que ser assim, isto é, mais ou menos não é? Afinal, a eleição está aí, os outros candidatos também… Mas uma coisa eu prometo pro senhor: todo o santo domingo, que Deus nos tenha…

– Amém…

– … eu virei rezar com o nosso povo na Igreja a propósito de pedir chuva pros céus.

– Será possível, “seu” Severino, que o senhor não entende mesmo nada? O senhor fica lá fazendo promessas para o povo e os coitados acreditando. Depois das eleições, nem cumprimentar que nada… nem na rua! Eu é que não vou anunciar ninguém em palanque nenhum!

– Mas padre, até que sou boa gente, sempre dou esmolas e…

– Olha aqui, “seu” Severino, esmola o senhor não promete em discursos. O senhor promete é chuva, gado gordo e plantação viçosa. Se o senhor não pode cumprir, então vê se muda de discurso ou se manda daqui, porque este ano tenho certeza que não vai ser só pedra como no ano da última eleição. O senhor, e mais alguns que tão bem eu conheço, vão é ser corridos da cidade…

– Não diga uma coisa destas, “Irmão”! Se eu for eleito Prefeito tudo vai mudar, pode confiar em mim! Padre Cacildo, o senhor não sabe, mas fui eu quem deu telhas pra fazer a casa do “seu” Jodêncio! E dei também sapatos pra família toda da dona Aversina! E um emprego “do governo” pro filho do “seu” Adenilio e…

– Mas veja só, faz umas misérias dessas que qualquer um com bom senso e oportunidade deveria fazer e ainda acha que foi muito. Se o senhor, Deus me perdoe, fosse eleito, o que iria mudar hein? Vai mudar coisa nenhuma! O pessoal tá aí, com a garganta seca e a alma ainda mais seca de tanto pedir, acreditar e esperar por vocês, candidatos políticos. E ainda dizem-se “representantes do povo”…

– Padre, por favor… fraqueza todo mundo tem, o senhor devia acreditar um pouco em mim. Vai, me dá uma chance: vai lá no palanque e me anuncia, só hoje…

– Nada, “seu” Severino, vou é esperar o senhor lá na frente do palanque. A gentarada toda está lá em pé esperando. Passe bem, “irmão”, e bom discurso!

E lá se foi o Padre Cacildo, com um descompromissado sorriso nos lábios em direção ao palanque. Enquanto que o Dr. Severino Manoel Santo, engasgava o seu seco discurso, naquela seca manhã.

 

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