Desvarios

TRECHOS: A PAIXÃO SEM EIXOS (7)

Se tuas mãos me tocarem o corpo e tudo em mim dissolver-se sem tréguas, não haverá desperdícios. Só nos podemos aproximar pelas rimas, sem o olhar, as palavras, os anseios, há o suplício. Vens silente, invadindo e te aceito; retribuo o gesto de quebrar os muros… todos os vícios. E te quero, quero tua paixão e sonho, as manhãs que nós faremos madrugadas desde o início. Bem mais que olhares a se confundir serenos, tantos braços, tantos lábios, pensamentos, o despertar ilícito. Sentimos o furor do interno, coisas do fundo, tudo a ser vivido, leves indícios. E quando vens do âmago da terra, se transformar em lama no meu corpo d’água, apaixonadamente explícito! Meu incompreensível ser de rumos não traçados, a burlar meus medos soltando as amarras… eu desconfio, és Mefisto! Mas se soltar meu eu em tua direção, tudo de nós se fundirá em um vulcão nunca visto. Entra, minha terra, vira meu avesso, encerra a dor, conduz-me ao teu canto e eu viverei por isto.

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Não me prometas nada que depois não possas cumprir. Não deixa os teus olhos à solta, levando os meus a passeios longe da razão. Não chega tão perto de mim, teu perfume eu conheço e ele me indispõe contra os princípios. Parte de mim enquanto ainda és idéia, enquanto ainda não te toquei. Porque eu sei da névoa a nos envolver premeditada e úmida. Porque eu sei que te querer é só o imperativo que me toma. Porque eu sei que me evitando me procuras. Alma que sinto e me arranha os sentidos, liberta-me desta paixão.

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Raio de luar, diáfano me enlaça, toda. Sôfrega trapaça da paixão insana, mãos displicentes, boca sedenta do fel, tua sede. Estou nua, caída na rede das tuas incertezas. Ainda desperta te acompanho ao horizonte quase perdido e teus gemidos da alma-fonte, passam a porta aberta. Teus beijos todos, corpo e malícias a me seduzir. Clamam-me mulher.

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Verte a verve verde vértebra e vibra e veste a vastidão da volta. Me emociono demais a cada vez que chegas.

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Vou viver das cintilações que vi em teu olhar. Até o instante venerado de poder amanhecer ao teu lado.

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Rompe, dilacera, consome, desfaz, brota, rebenta, corta, remove, recomeça… vence.

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Não posso mais mentir assim calada, se me transformo ao teu mais simples gesto. Se fico rouca ao tentar falar e ansiosa por te dar prazer. Todas as vezes quase que pressinto, é o instante em que acontecerá. E me pergunto, tola, acontecer o que?, se é bem possível nem saberes quem eu sou.

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Gosto de instigar o impossível, convidá-lo lentamente a fazer parte de meu cotidiano. Seduzi-lo pouco a pouco, como quem recusa sem haver sido pedido. Levá-lo à cruel dúvida, instituir novas leis. Do impossível ao improvável; daí ao realizável. Sensação pura, pura, de provar a provocação.

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Imagem by Pedro Ribeiro Simões

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