Desvarios

TRECHOS: A PAIXÃO SEM EIXOS (6)

Vem, ser que desliza por de trás das cortinas e só com gestos insinua a paixão que traz em si. Nem quero ver o teu rosto, saber o teu nome. Quero a tua fome! Vem, sombra interdita, figurar aqui, fazer-me completa, dar-me um outro fim.

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Há um mundo dentro de ti que desconheço. O teu avesso, aquele, eu senti por um segundo. Tentativa vã, futilidade, esboço… teu recato. Ages e tudo se esvai apesar do pavor e do afã. Mas a lua é cheia, vejo de perto o teu ego, teu corpo que se denuncia. O olhar é cego, mas o calor incendeia.

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Somos metades distintas de uma lua que desliza. Nuvens de chuvas intermitentes, somos nós comparsas de uma emoção particular e urgente.

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Desnuda-me o corpo, a alma, as fantasias, inebria o meu sonho com realidades cruas. Tira de mim o mel, a poesia e traz à tona toda a insensatez dos delírios sem prantos, das paixões infiéis. Águas mansas, fortes correntezas; tépida areia, lençóis rasgados. Faz-se a espera e não é possível aguardar a chegada de uma chave. Arromba a porta, vem sem nem avisos, os medos, receios, caiam tempestades sobre mim. Chova na terra umedecendo tudo… que eu ficarei prostrada ali no chão, junto às paredes, as horas a crescer… fantoche doido a bailar sem rumo! Arrebata o meu sentimento louco e eu virei do poço sôfrega viver! Verás de mim o animal no cio, que por um fio não larga de morrer.

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Há o gesto tênue guiando-me em tua correnteza, e assim sigo, abandonando-me ao pertencer. Abarco teus anseios e com eles amaino a minha espera.

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Vem comigo. Agora. Vamos sair e sei como será. Falarás comigo alegre e virá o silêncio. Depois, falaremos mais e tudo será dito. Tuas mãos guardarão as minhas e eu estarei inteira dentro delas. Será o princípio de um instante e para mim, tudo.

 

Imagem by Pedro Ribeiro Simões

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