Desvarios

TRECHOS: A PAIXÃO SEM EIXOS (3)

Ah, esta certeza absoluta que experimento de saber que farás parte de mim. Renego, fujo, me esquivo até mesmo dos pensamentos. E é aí que me invades o sono, para que eu prove de antemão o teu sabor.

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Se me tocares neste instante, por puro acaso, desastre. Vais perceber que tremo, que sou tua presa e nem fujo mais. Se me tocares será um universo que estarás abrindo com tuas mãos e que, sem defesas, será teu. Mas isto é agora, neste minuto que passa. No minuto seguinte já estarei longe, talvez predador, talvez espectador.

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Este sentimento que venho provando por ti demonstra algo desconhecido para os meus sentidos. Que força imensa, que desejo louco, que fantasia perfeita! E quando me imagino em teus braços voo ao infinito, alcanço o paraíso da paixão que arde. Sinto-me capaz de ser tanto, ser tudo o que me pedires. E ainda presentear-te com a sublime surpresa de amar-te profunda e inconsequentemente, sem que para isto precises mais do que me estender a mão.

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Dar-te-ei de beber em minhas mãos. E hás de sentir que passei todo o tempo a recolher de ti o que agora provarás. Porque minhas mãos serenas estavam tuas e nada fizeram mais do que estar junto a ti. O sabor amargo, se o sentires, é do teu próprio veneno.

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Emerge de mim o sonho, ele se espreguiça e é branco. O colo liso, o olhar manso, me tira o sono. Fosse ele a imaginação fremente, o tilintar fugaz da vida à espera, mas ele é chama e chama a quimera, infinito e conseqüentemente. Vem do âmago do corpo, do desconhecido, afastando ossos, peles, veias, amordaçando a alma com sua teia, revelando um eu subentendido. Na garganta sinto… forte… os braços se movendo em busca… e o corpo todo trêmulo se vê, querendo uma paixão que o suporte. Sai de dentro o alívio sem pudor; o sonho que vingou enfim. Instante sem lucidez, viagem com destino ao supremo. Sonho ainda, já silente, os olhos fechados e o suor. Estou só. Estou fantasiada.

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Hoje, eu bebi tua voz.

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Ficarias encantado em saber que, lânguida como uma serpente sobre a areia, me dirijo ao lugar onde estás? Encanta-me saber que finges não perceber. Este desconhecimento, fictício e exato, há de permitir-nos viver a louca aventura que tanto desejamos inconfessadamente.

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Imagem byUnsplash

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