Contos e crônicas

MEMÓRIAS CONTADAS (O LIVRO DOS EXILADOS)

Lembro porque entrevistei. Ou conversei. São várias pessoas vindas de lá para cá, com a intenção de ficar, fazer a vida, melhorar de vida, crescer, multiplicar, se exercitar, ver diferente. Outros, de passagem, permanência curta ou longa.

Todos vieram por motivos semelhantes: o parente ou amigo que visita o país natal e conta das vantagens que tem vivendo longe. (Sem nunca contar do trabalho que passa); a curiosidade de ver como é a cara do estrangeiro (o primeiro mundo é mesmo primeiro?); a certeza de que nasceu no lugar errado. E alguns outros que, resumindo, vão dar no mesmo lugar. A gente sai para trabalhar, para estudar, para viver. E aprender principalmente a sobreviver.

São poucos, muito poucos os que se dão bem. Não se pode dar a ilusão do jeitinho brejeiro de agir que se tem e que dá certo em todos os cantos. São bem poucos os que chegam a viver realmente bem. E são raros os que chegam aí sem passar por todas as pontes da vida, incluindo as quebradas.

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Menino

Ele veio morar aqui porque precisava mudar de ares. Queria a liberdade de se assumir, assumir sua homossexualidade, viver a vida com o céu aberto. Ele já falava um pouco a língua, tinha o jeito quase de desdém natural dos que sabem muito. Inscreveu-se num curso com o dinheiro emprestado ao amigo que já pagara também a passagem. A bondade do amigo sendo infinita, moravam juntos, saíam juntos e a vida seguiu assim alguns meses. Poucos. O tempo de descobrir que o amigo já fizera isto muitas vezes. Tinha mesmo uma “rede” de gente que nem ele vivendo por ali por perto, sendo sustentado pela amizade. Traduza-se: de noite sai-se, diverte-se um amigo do amigo, recebe-se dinheiro pela diversão; durante o dia, dorme-se para descansar para a noite. Não dá mais tempo para estudar, o corpo de alguns já adoeceu. A alma de quase todos está ferida e à procura de remédio.

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Como mãe

Como uma boa mãe ela largou tudo para fazer o melhor pela filha pequena, criada sozinha com o auxílio de outra mãe, a dela. Foi depois que aquela prima a visitou, contando de como era fácil ganhar dinheiro no exterior, viver no luxo e ainda sustentar a família deixada. Pela aparência da prima, nada a negar: bonita, bem arrumada, perfumada, gastando dinheiro de um jeito que ela não ousaria. Ela decide: a pequena fica com a vó enquanto ela vai lá trabalhar um pouco, um ano, dois, pra fazer a família, tão pequena, viver de maneira mais amena. Deixa o emprego simples de funcionária pública onde o que ganha não vale tanto e parte com a passagem de ida. Já na chegada foi recepcionada de maneira fria pela prima sem tempo e acabada que precisa dormir e não tinha o que conversar. Não podia ficar alojada no apartamento porque a prima já estava no negro e não queria se responsabilizar por mais uma. Deu o nome de um gigolô amigo dela, deu o endereço e bateu a porta. Fome e lágrimas alimentam a dor da decepção. Só e sem referências, o único apoio que ela recebeu foi numa igreja perto dali onde um grupo de protestantes já se esforçava para ajudar outros como ela. Achou uma amiga, juntas começaram a fazer trabalhos de doméstica. Difícil, tão difícil conseguir voltar.

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A amiga

Ela também veio pela promessa da vida melhor. Largou tudo para tentar a sorte num país onde, disseram, há de tudo, todos são maravilhosos e não falta dinheiro. Não lhe disseram em troca de quê. Mas ela descobriu logo, na sua luta diária para não se tornar prostituta, para não cair na tentação fácil de viver uma vida que ela jamais tinha desejado. Limpava casas, escritórios, cuidava de crianças, dividia um apartamento abandonado num prédio abandonado com a amiga e outros quase dez. Era magra de nascença, mas seu rosto tinha rugas adquiridas há muito pouco tempo. Viajando pela casa dos vinte, ela se sentia velha e cansada. Como quando, limpando um escritório e negando prostituir-se, teve que assistir ao espetáculo sujo do dono que se masturbou a sua frente, jogando o esperma colorido de desprezo no balde que ela utilizava de cabeça baixa. A vida às vezes vinga-se. O príncipe encantado nesta história apareceu e levou-a ao altar.

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Dureza

Ela veio com o objetivo muito definido de estudar. Tinha bolsa de estudos, conhecia algumas pessoas, venho com selo nas costas e endereçada à Universidade com remetente de boa qualificação. Veio sem saber por quanto tempo, apenas com a certeza de que, aquilo que viera estudar, era o sentido de sua vida. Acabou passando mais tempo do que pensava. Estudou, é claro. E enquanto estudava, se apaixonava, se decepcionava, fazia amigos, colocava gente para dentro do coração um pouco endurecido por um passado emocionalmente difícil. Ia estudando e enquanto aprofundava seus conhecimentos, a vida dava-lhe demonstrações de cores e dores. Sua bondade vivia como uma aura em torno dela. Ela não percebia, mas os estudos mais sérios que estava fazendo eram feitos cada vez que fechava um livro, jogava uma caneta num canto ou abandonava um caderno. Cada vez que entrava casa adentro de um dos tantos amigos que conquistou… e chorava, ria, contava histórias, fazia feliz. Foi amiga, enfermeira, irmã, namorada, colega, mãe, tanta coisa linda. E pensou que era só estudante. Pensou e foi. Até levou o título de doutora. Venceu.

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Na maré

 

Veio arrastado jurando que tinha certeza do que estava fazendo. Na verdade, veio trazido pela maré, uma mulher, dois filhos e uma ponta de família estrangeira. Temperamento difícil, cavalo xucro, em poucos meses queria ir embora, não queria aprender a língua e estranhava tudo. A nova vida, as pessoas, a solidão, o fato de se tornar, à força, uma pessoa séria. Começou a trabalhar como funcionário público, numa vaga presenteada que depois lhe pediu muito suor para garantir. Mas ele ficou. E devagarzinho, sem nem mesmo sentir, parecia mais estrangeiro do que outros. Foi percebendo que tinha tido a sua chance e não queria mais largá-la. Voltava à terra natal através das músicas e dos copos de bebida ingeridos inadequada e tristemente. Tinha emprego. Não tinha amigos. Tinha família. Não tinha amigos. Tinha uma nova vida. Vazia de amigos. Agora estava se revendo, tentando saber de si mesmo. Achava que era feliz.

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Aprendendo a liberdade

 

Chegou por escolha própria. Só, empregada e com alguns projetos um pouco inconscientes de vida. Queria um amor, a liberdade e a coragem de viver só. Espremia-se entre o trabalho e um desejo insaciável de conhecer as paisagens que a circundavam. Viajava para todo o lado, não se permitia muito tempo para pensar em muita coisa. O amor veio junto com a decepção em sua pior forma : repetida ; a liberdade estava ali, presente, desejada, mas era rejeitada infantil e inconscientemente ; assim, a coragem de viver só se esvaía em viagens onde as gentes se faziam necessárias e em momentos onde o telefone e os cartões ocupavam o espaço. Moça bonita esquecida dela, precisava da mãe sem saber que a mãe precisava ainda mais dela. Moça inteligente que não usava o que sabia ensinar, para aprender em si mesma que o direito de existir lhe pertencia e requeria a solidão. Enfim, a solidão não foi muito usada. Às vezes veio i forçando tudo. E assim, querendo ou não, a passagem foi aberta. E ela viveu o começo. Tinha passado a adolescência tardia.

 

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Imagem by albert22278

 

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