Contos e crônicas

O NATAL E AS BOAS INTENÇÕES

Começou de novo. A santa época das boas intenções. É um tal de feliz natal pra lá, feliz natal pra cá que só quem tá chegando agora por aqui ou é muito apegado às tradições consegue suportar.

De repente, ficou combinado pelos ares que durante o correr do mês de dezembro até ali, digamos, os primeiros dias de janeiro vai, todo mundo tá perdoando todo mundo sem levar muito a fundo as histórias e sem cutucar muito a faca onde não deve. O importante é sorrir e demonstrar as boas intenções.

Exatamente. As intenções. Só as intenções. Porque ninguém falou em cumprir nada. Ninguém tá prometendo e levando papel assinado de presente. E nem vai levar. Os cartões, antes postais (e que pelo menos davam o trabalho de ir ao correio) agora são virtuais. A mailing ling é preparada, separada (de vez em quando) por amigos próximos, nem tão próximos, conhecidos e intenéticos e puf! Instantaneamente partem milhares de votos de muito amor e muita saúde neste lindo natal.

Confessem, por uma vez na vida, confessem. Não tem data mais chata do que esta. Quem tem a família viva (ou unida) fica torcendo pro jantar acabar rápido para poder se mandar, encontrar uma turma ou um (a) namorado (a) e curtir o feriado. Quem nem tem família (ou tem desunida) quer mais é que os sinos vão dobrar na casa do… padre, que os perus sejam vendidos o ano todo e que estes malditos pinheiros enfeitados desapareçam do cenário pra sempre.

Qualquer um pode agir de bom coração várias vezes por ano sem sequer fazer publicidade. Passar a mão na cabeça de um amigo triste, visitar doentes desconhecidos, doar um dinheirinho que sobrou para aquela causa nobre, dar uma mão para quem precisa… Mas ter a obrigação de demonstrar boas intenções, aliás, excelentes, todas em tons de vermelho, verde e branco… durante um mês… haja saco (de Papai Noel que não existe, mais uma que se tem que segurar e engolir!).

Noite de natal é a noite mais enganosa que existe. Ela é o cúmulo, o ápice do dezembro insidioso que se alastrou por todos os lares, infestando os corações com uma falsa paz, obrigando bolsos a se revirarem do avesso para que pais possam assumir o papel de papais-noéis que as crianças já não crêem (e já conseguem até mesmo, inteligentemente, de forma quase pérfida, enganar alguns parentes desprevenidos do avanço infantil…).

Bem, como eu sou uma pessoa de bons propósitos não poderia ficar fora do período natalino. Por isto vim aqui derramar minha baba cáustica. Na esperança de retirar um pouco do nevoeiro que este período demasiadamente doce provoca durante todo o dezembro para depois deixar o vácuo, o amargor, certas raivas… ou uma beatitude completamente desnecessária para viver neste mundo.

E, como já tantos já disseram que, “de boas intenções o inferno está cheio”, não vamos contribuir para superlotar o condomínio do demo, minha gente! Deixem as boas intenções de lado, quem tiver a fim de agir bem aja, que não estiver, nem finja. E que se dane essa coisa de natal. Não se preocupem. Daqui a pouco passa.

 

Imagem by angelolucas

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