Contos e crônicas

UM BELO DIA…

Um belo dia a gente olha pra vida, põe as mãos na cintura, leva pra cabeça, desce de novo ali pras costas e, diante da evidência fala pra si mesmo:

– Aquele sonho eu não realizei.

E junto com as imagens do sonho não realizado, bem mais reais do que se tivessem se tornado parte da realidade e então, fotografados, agora fizessem parte dos álbuns de família, chegam certos arrependimentos e vontades meio descabidas. Como o de se perguntar: por que não??

Coçando a cabeça ou mexendo de um lado para o outro, a resposta é boba e mesmo que se inventassem coisas mais interessantes, elas acabariam por se reunir na mesma: não deu. Só isto. Não deu. O tempo passa, as prioridades mudam, certas coisas vão parar em gavetas. Reais e do coração. Taí onde foi parar, olha só, aquilo que um dia parecia que se não acontecesse nunca poderíamos ser felizes. Ai, a felicidade!

Esta aí, aliás, é outra. Idealizada, coitada, nem dá pra contar o quanto. A cada etapa da vida vai mudando de patamar, de forma, incluindo e retirando personagens, se moldando conforme aquela coisa terrível chamada mundo real manda. E manda, hein. E a gente obedece que ninguém é besta a viver só de sonhos depois de ter enfrentado certas idades e desilusões. Fazer de conta ali, de vez em quando, durante as pausas, entre um cansaço e outro, tudo bem. Mas fora isto, deixa quieto. O melhor é botar a cabeça exatamente no lugar dela, ou seja, em cima do pescoço (coladinha, de preferência) e continuar seguindo.

E o tal do sonho que eu não realizei?

Já ouviu falar de arquivo, minha filha?? Não nega que é feio… Todo mundo tem um arquivinho pessoal. Tem igual a qualquer repartição pública ou empresa privada: o ativo e o morto. E sonho que não se realizou até certa data, convenhamos, perdeu sua validade e deve estar lá, devidamente colocado no arquivo morto. Se não foi pra lá tem alguma coisa errada… ou com o sonho ou com quem tá sonhando. Hora de botar os pezinhos no chão!!! Hora de usar a cabecinha para coisas úteis…. que de já teve tem até um coisa que eu não gosto nem de falar.

Já teve. E tudo tem. Já teve? Tudo tem?

Se eu fosse escrever isto hoje escreveria assim: Terra do Tinha. Tinha. Tinha sem remorso. Tinha e só guardou na memória de uns poucos que aos poucos estão se apagando. Tinha e muito em breve provavelmente nem saberá disto de tão desmemoriada. E sem complemento, que só vai servir pra complicar, eu abandono a causa. Esperando um futuro melhor. Mas aí eu já tô de novo entrando no esquema dos sonhos não realizados. E tem uma filinha de mais de dois, de mais de quatro. Tem assim uma boa meia dúzia que eu vou ter que decidir de uma vez por todas: arquivo morto? Ou será que ainda vou ficar com o carimbo “Espera Mais Um Pouco” na mão?

Sei lá… acho que vou começar a arquivar pela ordem dos pessoais e assim por diante. Como têm muitos, quem sabe quando chegar aos coletivos, que são ainda muitos, muitos mais, eu consiga colocar meu carimbinho “OK” pelo menos em um ou dois.

Eu não aprendo mesmo, acabei de inventar mais um sonho… assim não vai dar….

 

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