Contos e crônicas

RECRIAR-SE

Uma das coisas mais difíceis de fazer é justamente abandonar o que de velho faz parte de nossa vida, de nossa rotina, de nosso armário… dando assim espaço para o novo.

Muitas vezes a sensação é que estamos jogando fora algo precioso e que nunca mais poderá ser recuperado. Quem sabe?

Verdade seja dita, durante a vida isto acontece muitas vezes. Mas um dos momentos onde isto mais parece verdadeiro é quando mudamos de país.

Mudamos por inúmeras razões: para estar perto da família ou para formar uma nova família; para encontrar melhores condições de trabalho (ou de estudo); para conhecer novas culturas; para melhorar as condições de vida; para mudar radicalmente o rumo tomado anteriormente. Seja qual for a razão, uma coisa é certa e dela não podemos fugir: estando num novo país, onde a integração é fase necessária para dar continuidade à nova vida, temos que, tantas vezes, nos recriarmos. Nos reinventarmos. Reaprender a viver, a ser uma pessoa que antes sequer pensávamos poder ser.

O que cultivamos e aprendemos em nosso país de origem fica em nós como bagagem cultural e emocional que não poderá ser esquecida ou abandonada: a língua, os hábitos, a alimentação, as pessoas…. Tudo o que fazia parte da vida que levávamos continuará em nós, com certeza. E de maneira forte permanecerá em nosso coração.

Mas com esta mesma certeza, seguindo o caminho que escolhemos em um novo país, teremos sim que passar pela fase imprescindível do “recriar-se”, onde aprendemos uma nova língua e com ela lidamos para falar no dia a dia, para expressar nossas emoções e razões. Aprendemos também a conviver com as diferenças culturais e a fazer destas mesmas diferenças degraus para atingir não só a convivência ideal, mas a compreensão do novo mundo que nos cerca.

Nos “recriamos” para sobreviver, mas também para viver melhor. Adquirimos a língua, novos hábitos; participamos da cultura local, fazemos amizade com pessoas de outras nacionalidades e com elas estabelecemos laços que vão desde os familiares aos empregatícios. Nestas novas relações construímos uma base interior de nós mesmos muitas vezes bem distante do que fomos em nosso país de origem. Isto é a chamada integração e a integração é a realidade de se recriar.

Pensemos também que aqueles que nos acolhem também se adaptam, de certa maneira, para nos receber. O sentimento de reciprocidade só ajuda a construir melhores relacionamentos e permite uma melhor integração.

Assim, quando pensamos em o “quanto mudamos” desde que saímos de nosso país, pensemos também no quanto amadurecemos, no quanto crescemos através da recriação de nós mesmos. Somos diferentes atualmente. Mas certamente somos melhores, mais completos, mais abertos e mais realizados.

Recriar a si mesmo é um ato de amor.

 

Imagem by fsightstudio

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta