Poemas

PINTURA INGÊNUA

Meu pai se sentava sempre na cozinha, ouvia o rádio, lia jornais, fazia jornais

e pintava.

A camisa um dia branca combinando com a calça do terno (ele andava na rua sempre de terno),

esta um dia também tinha sido só cinza

mas agora ambas traziam dedos e tinta, dedos de tinta, os seus dedos envelhecidos, grandes,

compridos e cheios de tinta.

Pintava a camisa, a calça, as telas e quando via madeira ou pedra ou pano ou mesmo uma telha

pintava também.

Fazia com os dedos o imenso céu, fundo de cores que se confundiam em seu coração

e nas telas deixava as cores que ele via quando olhava só com o seu coração

e os personagens, sempre pretinhos, sempre sem rosto, sempre em movimento:

Pai, por que eles são assim? Não sei… eles são assim…. E eles eram assim…

e os restos de todos eles nas camisas, nas calças, a tinta na mesa e no chão

e onde mais se encontrassem os seus dedos, onde se encontrasse o seu coração.

Meu pai não perdia tempo com esboços, sua vida nunca teve rascunho, ele era intenso

viveu uma vida de excessos, bebia cerveja, comia salsichas e esperava a bênção que era

para ele a comida da minha mãe.

Tinha horários, era perdulário, um tirana, um mago, um rebelde, anarquista

e bem no fundo só um menino.

Se obrigava a não ter obrigações e fingia não se importar com os outros e suas tantas línguas

e olhos ferinos e mãos pesadas.

Pode ser que de tanto fazer de conta tenha passado mesmo a nem se importar…

Meu pai andava descalço, só de meias, pela casa toda; tirava o pó, tirava a mesa, botava a mesa,

esperava a gente ou se a gente não vinha, esperava as gentes.

Tinha saudades inconfessadas, brincava com elas, fazia de conta que o tempo era só tolo

e não um vilão de tanto passar e sair levando pra longe todos os seus.

Enfeitava a casa com objetos pequenos, um monte de enfeites de tantos lugares

em todos os lugares da casa.

Deixava as paredes e as estantes coloridas e a minha mãe atrás dele a reclamar: que coisa!

sempre mais coisas pra tirar o pó! E ele então ia atrás do pó.

Meu pai via com os olhos e falava tão belo palavras que não buscava, elas vinham de dentro dele,

jorravam felizes de o ter, e sua voz tão bonita, como aquele que as diz… elas o tinham escolhido

as palavras que ele vinham dele.

E estas mesmas palavras escorriam pelas mãos e se transformavam em letras que podiam

falar de bons sentimentos ou de destruição. Ele não escolhia. Elas escolhiam por ele a hora

de ser o que queriam ser.

Meu pai ria pouco, mas quando ria, ria feliz e ria alto e até gargalhava. Podia rir dos gibis,

das piadas, de estar feliz, do alheio, ele ria. Ria muito em momentos raros.

Noutros só fazia de conta, sorria baixinho e seus olhos longe, longe, olhavam longe.

Tinha ataques de raiva, coisas passageiras, crises de agonia. Deixava sair impropérios

e depois se arrependia e de arrependido queria depois comprar o mundo

e fazer dele uma borracha para tudo apagar.

Meu pai sentado na cozinha palpitava com a vida e dava palpites sobre tudo: na casa, nas gentes

e no que minha mãe fazia, se ela cozinhava ou se arrumava para o baile.

Queria comida diferente, um mundo diferente, amava os cachorros e os vizinhos.

Queria minha mãe em vestidos de seda, brilhando para ele naquele universo deles.

Meu pai sentava na cozinha e ficava lá até a hora de deitar quando ia para a cama sozinho,

pensando, solitário em mundo que ninguém mais conhecia.

Ou ia pelos braços queridos de minha mãe, braços cheios de alma.

Meu pai entregou sua alma quando minha mãe, de repente, resolveu partir.

Ele de repente também cansou, da casa, das tintas, da vida e da cozinha.

Foi com ela para outro lugar onde haveria de ter tintas nas suas calças

e em tudo o mais que tocasse e telas para pintar e canetas para escrever.

Meu pai que tinha ainda a casa e suas gentes e um monte de tintas aqui, não vivia sem minha mãe.

Ele deve estar com ela agora em uma cozinha colorida.

 

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