Contos e crônicas

OSSOS DOS ESTUDOS

Navegando nas águas estudantis, nada melhor do que mergulhar naquilo que se fazia nas horas em que, justamente, não se estudava.

Os grupos de meninas (mocinhas, a gente preferia) que ia ver (torcer por a gente dizia) os garotos jogando futebol de salão no ginásio coberto. Nossa! Cada uma tinha o seu “craque”, os cotovelos se cutucavam o tempo todo, olhares e sorrisos se cruzavam… tudo para depois escrever nos cadernos poemas inspirados e apaixonados que a grande maioria dos beckans, ronaldos e cacás nunca ficaram nem sabendo!

Tinha também as gincanas do CCL. Nós, que estudávamos durante o dia e não participávamos ativamente das equipes, fazíamos parte da fervorosa torcida. Ou então acabávamos participando como coadjuvantes, dando uma mãozinha, fazendo alguma coisa para estar presente naquele jogo que fazia a cidade inteira se movimentar. Uma vez fui Carmen Miranda para uma equipe. Meu irmão Karim e um amigo que infelizmente não lembro o nome, fizeram uma representação homérica da música Severina Chique-Chique. Jairo Barcelos fez representações maravilhosas, e muitas vezes. Muitas pessoas agudavam a catar quilos e quilos de mantimentos. E outras mais, montes de livros e outras coisas que eram doadas a diversas entidades. Todos os anos novos desafios faziam novas equipes saírem pela cidade em busca da realização. Sensação de jogar com a vida, a favor dela.

Ah, e tinha o concurso de Miss Estudante. E deste eu tenho uma historinha particular. Cada concurso tinha a sua representante, todos os anos.  Naquele ano a nossa representante quebrou o pé, a perna, sei lá. E como sempre, eu fui procurada (para variar às pressas) pelo Comitê do tal evento para representar nosso amado curso. Com os ossos dos dois pés inteiros, não deu pra recusar. Disse que tinha o vestido, avisei que não tinha uma sandália ou sapato alto que combinasse e eles ficaram de levar o tal sapato e o “traje típico”.

Naquela noite, entre todas as candidatas, fui a mais sorridente. Sorri do início ao fim do desfile. Sorri vestida com o medonho traje típico (uma coisa preta terrível com uma peruca colorida ainda mais feia…, típica talvez de Urano) e sorri com meu lindo vestido salmão. Sorri quando me classificaram entre as dez. Sorri, sorri. Sorri até mesmo quando me deram o terceiro lugar. Sorri durante as longas horas que se passaram entre o início e o fim do concurso.

Aliás, para quem olhava direito, eu não sorria… eu ria. Ria pra não chorar. Pra não chorar de raiva e de dor. Porque meu pezinho de Cinderela é número 37 e passei horas desfilando e gemendo numa sandália 35. Ganhei uma coleção de calos proporcional ao número de palavrões que consegui memorizar.

Todo o pessoal do meu curso quando eu passava, me abanava, batia palmas e gritava:

– Aí Jacque!

– Já ganhou!

E eu lá…. Sussurrando, murmurando, tentando fazer alguém entender no meio do sorriso:

– … preciso sair… me chamem lá fora… preciso parar… eu vou cair… suas pragas…ai.. que dor no meu pé..  me tir…

Não deu certo, tive que esperar acabar. Meu sorriso me calou. Ossos do…dos estudos.

 

Imagem by arquivo pessoal de Jacqueline Aisenman

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta