Contos e crônicas

EGOÍSTA SEM MENTIR

Eu poderia sair por aí abraçando o mundo e dizer que sofro suas dores. Mas há momentos em que só consigo sofrer as minhas. Sou egoísta? Muitas vezes eu me sinto feliz sentando e oferecendo minha calma, toda vontade de ouvir, meus dois ouvidos inteiros… Mas em outros estou irada, sem paciência e só gostaria que me ouvissem, que todos me ouvissem… e de tapar os ouvidos para nada ouvir dos outros… e até mesmo ser surda para nada, nada ouvir.

Eu poderia alegremente sorrir para todos e distribuir de mim esta felicidade que faz parte de minha pele, de minhas moléculas, de minha vontade de existir e de doar, doar. Mas há alguns instantes em que me sinto tão mal que meus lábios estão fixos e tenho os olhos que quase saem das órbitas buscando sorrisos, sorrisos para mim. Só para mim. Sou egoísta?

Eu poderia passear pelas ruas, olhar tudo e tudo chamar de maravilhoso, tudo achar lindo, nem defeitos procurar. Mas quero salientar as minhas virtudes, fascinar-me comigo mesma. Eu poderia seguir o caminho dos altruístas e provar o mel dos que só nos outros pensam. Mas em algumas circunstâncias isto seria uma mentira e nada mais que uma mentira pois há instantes em que meu pensamento não se afasta de mim.

É o egoísmo?

Afinal, para que sofrer as dores do mundo, se as minhas se alastram segundo a segundo? Para que ouvir pessoas tolas e embrutecidas se tantas vezes o que tenho para dizer vem da dura experiência que já me calejou os pés e o coração? Para que abrir a boca e falar coisas que se perderão no infinito e abrir os lábios em sorrisos que se perderão nos reflexos da dor alheia e no cansaço da inveja por não saber sorrir? Eu quero que a felicidade venha para mim e aqui permaneça sem jamais partir.

Para que procurar por belas paisagens se as bem mais belas encontram-se em minhas passagens interiores? Para que preocupar-me com a insignificância de tantos que lutam com eles mesmos para provar o quanto são mais do que eu sem jamais conseguir? Se meus problemas são dignos de preocupação, mais digna de preocupação é ainda a necessidade de reverter a infelicidade em perfeita realidade.

Para que ficar rouca gritando para o mundo algumas mentiras, se o que tenho em minha vida são momentos que resultam dos bons, dos maus, de alegrias, de ira. Muitas vezes sou egoísta sim. E em todas essas vezes não poderia deixar de ser. Porque aí, iria mentir. Mentir e deixar de viver.

(Ouvindo o disco “Muito”, de e com Caetano Veloso. Suave, delicioso.)

Imagem by  SandyManase

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