Contos e crônicas

O NASCIMENTO DO BOTO PESCADOR

Pedro era estivador, trabalhava duro no porto da cidade carregando sacas. Nas horas vagas, pegava a canoa, com ela abraçava o mar e ia pescar para alimentar a família.

Enquanto pescava, Pedro sentia a paz que nenhum outro lugar no mundo lhe dava – talvez apenas se igualasse aos braços de sua amada Marta, rendeira que lhe esperava em casa, da pescaria e da estiva, com sorriso nos lábios e comida sobre o fogão à lenha.

Um dia o pescador saiu cedo, a manhã ainda nem havia chegado. Remou, remou e nem reparou no vento forte que balançava tudo, fazendo dançar suas redes e tudo o mais que na canoa se assentava. Nem ele percebeu quando ou como, apenas sentiu que mergulhava cada vez mais fundo, cada vez mais fundo, cada vez mais fundo, as águas cobrindo seu corpo e suas esperanças.

No exato instante em que pensava nunca mais poder voltar, a respiração já longe de suas possibilidades, Pedro sentiu mãos que lhe seguravam firmes. Olhou e viu uma linda mulher vestida de azul, uma tiara prateada sobre a cabeça. Não reconheceu a figura que tinha em volta dela todo um brilho, como se o sol tivera entrado no mar.

Iemanjá, as mãos em volta do corpo de Pedro, sorria docemente.

– Pedro, disse ela, chegou a hora de deixar a Terra. Queres ir para o céu virar estrela ou preferes o mar?

– Santa! Santa mulher! Eu amo tanto este mar!

– Então, Pedro, te deixarei viver no mar.

– Mas e minha família e meus amigos, nem vou poder me despedir?

– Não, meu amigo. Não será possível. Tua boa lembrança ficará entre eles. Mas, em sua nova vida você poderá estar sempre presente junto aos seus, junto aos pescadores.

– Como, como?

– Preste atenção, Pedro: tu vais viver no mar como um boto! Tua missão será ajudar os pescadores a pescar, a ter peixes para levar para casa e alimentar suas famílias!

– Boto? Ajudar os pescadores? Mas eu….

– Olha para ti Pedro….

Pedro olhou para si, percebeu que respirava naturalmente. Sua forma agora era a de um boto! Nadava instintivamente! Sorriu feliz para a mulher e falou:

– Faço-lhe a promessa, Santa: enquanto eu viver ajudarei todos os pescadores que vierem em busca de alimento. Estarei sempre pronto a ajudar. Muito obrigado por me permitir continuar no mar que eu tanto amo!

– Viveste uma vida de honras e assim mereceste. Tua família não ficará desamparada e teu auxílio aos pescadores alimentará muitas famílias.

E dizendo isto Iemanjá foi desaparecendo aos poucos, enquanto Pedro, o boto pescador, nadava e saltava nos Molhes da Barra da linda Laguna aguardando a chegada dos pescadores.

 

 

*Na cidade de Laguna, Santa Catarina, os botos auxiliam os pescadores na labuta diária. Nos Molhes da Barra, é comum ver os botos saltando e indicando onde estão os cardumes para que os pescadores então atirem suas redes. Estes botos estão ameaçados de extinção.

 

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