Contos e crônicas

NADI

Era uma mulher simples minha avó. Tinha os cabelos escuros e longos e o corpo avantajado e forte. Pisava o chão descalça e não sorria sempre. Seu sorriso vinha dos olhos negros, tão negros quanto os cabelos.

Suas mãos hábeis teciam a renda da roupa e da rede de pescar do marido e dos filhos. Suas mãos também faziam o feijão, o pirão e o peixe servidos no alguidar.

Um dia, ainda pequena,  falei para  minha mãe  – que tinha dela os traços todos no rosto e no coração – : Como minha vó é linda!

– Ela é índia, minha filha. Tem a beleza, valentia e bondade de índia e isto já vem da mãe dela.

Levei mais de quarenta anos para entender o que vinha dentro de todas aquelas palavras. Primeiro se foi a avó para o além do horizonte, tecer mais redes para meu avô pescador. Depois se foi a mãe, que com certeza foi ter com eles, a família estando tão grande já naquela mata sem fim que chamam céu.

Até o dia em que me olhei no espelho sem querer. Vi os traços de todas as duas em mim. Me descobri bela. Me descobri valente. Me descobri índia!

 

Imagem by colorblindPICASO

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1 Comentário

  • responder
    Rita
    15 janeiro 2016 em 16 h 35 min

    Lindo!

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