Contos e crônicas

LINHAS A MAIS E LETRAS A MENOS

Estava tudo escrito e ainda assim ela teimava em ler ao contrário e escrever por cima. Misturava as letras e mudava as frases, combinando palavras e pontos numa excêntrica dança que fazia quase mal aos olhos desacostumados com tamanha ousadia.

Ia do fim ao início, obstinando-se em subtrair linhas, aumentar letras, enfeitar margens e trocar os pontos de lugar e de obviedade. Parecia querer brincar ao invés de encarar a leitura como deveria ser em suas bases; fugia do escrito interpretando-o ao sabor de sua vontade.

Sentia-se livre para pular parágrafos e mesmo inventar novos títulos que incluía aqui e ali como se fossem intervalos ou capítulos novos. Não opinava sobre o conteúdo mas fazia dele algo maleável e transfigurável.

Estava tudo escrito e ela resistia, persistente, reescrevendo por cima com sua letra vezes firme, vezes trêmula, vezes forte, vezes apagada. Criava linha sobre linha e fazia bailar as letras como se estivessem ali recortadas, de mãos dadas, bonequinhos de papel na luz e nas sombras.

E assim ela ia reescrevendo o seu destino sob o olhar embevecido e indulgente do autor.

 

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