Contos e crônicas

FALTA UM PEDAÇO DE MIM

Falta um pedaço de mim. Não qualquer pedaço, mas um que deveria estar aqui dentro de mim agora mesmo e não está. Poderiam estar faltando outros pedaços e talvez eu fosse notar a falta muito mais tarde, talvez nunca. Mas o que está faltando é um pedaço grande e corte ainda sangra. Corre em mim e pelo chão um sangue claro e cálido, esquálida amostra de o quanto a fraqueza se impõe. Sinto falta e não sei que nome chamar. Não sei o que e nem a quem pedir de volta. Mas sei que não há em mim um ser completo. Estou meio vazia, meio inteira, meio sem ser eu mesma. A falta que faz um pedaço de mim que conheço sem conhecer e nem mesmo sei se aprecio ao ponto de ter criado ou se foi adquirido com o tempo, com a vontade ou as dores da vida as quais chamamos experiência. Experiência são sempre dores. Coisas boas e alegrias e festas dos sentidos não são experiências propriamente ditas porque acabam sendo rotuladas como lembranças e pronto. Das experiências tudo o que não queremos é que se repitam e acabamos por repeti-las sem cessar. Vodu. Espezinhando o quanto der e não der. Lembranças são quase sempre bem-vindas, temos um álbum de retratos virtual na mente encarregado de ir colando as figurinhas no álbum. O ruim vai para as gavetas do submundo que existe e chamamos inconsciente ou coisas parecidas e desconhecidas. Desconhecido o pedaço que me falta e me faz tanta falta. Não sei se tenho dele experiências ou lembranças mas sei o quanto preciso dele porque é como se ele fosse a canalização entre o meu interior e o exterior. Vou acabar me afogando sem o pedaço que faz falta. E quem se importa? Talvez neste minuto eu mesma e no próximo minuto nem eu mesma mais me importe pois chegue a pensar que posso sim, viver em pedaços. Pedaços desperdiçados, despedaçada em partes que não se encontram. Uma tempestade de sentidos que encharca o solo da mente e suga do corpo toda água. Uma seca. Um turbilhão de pensamentos que se destina a nunca ser mais do que nuvens pela cabeça sem deixar absolutamente nada para trás. Nem um pingo de chuva. Nem um leve ar a mover qualquer coisa que seja. Onde está e o que é o pedaço que me falta? E afinal para que tanto quero lembrar dele? E se sem ele, mesmo enquanto não sinto a plenitude, acabar por compreender um outro pedaço, talvez o restante, talvez o único, talvez mesmo o ideal… Se sem ele estiver melhor? Mais penso e menos quero a resposta. Escorre, escorre, escorre. Há um vazamento interior que prova que não, não há como estar melhor sem um pedaço que faltante. Vai haver com certeza uma implosão. Lacunas não são preenchidas com mais vazio. Vai haver com certeza uma implosão. A não ser que o pedaço retorne. Que ele se reconheça na obviedade e venha se recolar, reconstruir, retornando ao berço, filho pródigo pelo qual não tenho sentimentos, apenas a falta perene. Falta um pedaço de mim e já não sei se poderei viver com ele.

 

Imagem by G. Sayour

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