Contos e crônicas

EU TINHA 15 ANOS!

As meninas de 15 anos em geral sonham. Elas são alegres, têm um namorado do lado ou um grande amor no coração. São sempre bonitas, estão desabrochando para a vida e para o mundo.
Quando o ano dos meus 15 anos começou, eu sonhava, com olhos abertos e fechados. Os meses de janeiro e fevereiro me viram menos alegre do que eu sempre era. Menos brincalhona. Passava muitas das horas “de praia”, na casa dos meus avós, recortando revistas, fazendo colagens, escrevendo. Fazia parte de várias turmas de amigas, nunca de uma só, mesmo se eram turmas muito diferentes. Mas recusava convites, tentava evitar quase tudo. Eu estava diferente. Estava bem mais magra, me sentia sempre cansada, não tinha disposição para quase nada.
Um pouco mais tarde, o Conjunto Educacional Almirante Lamego abriu suas portas e eu praticamente já estava dentro da sala… primeiro ano de científico, novidades, tanta coisa para aprender! Era muito importante fazer de conta detestar a maioria do que se aprendia. E também detestar alguns professores, ser “do contra”.   Normalmente eu não seria. Mas adolescente é adolescente… e ninguém nessa idade vai confessar que saiu da aula e foi para casa pesquisar um pouco mais sobre o assunto porque cresceu assim, amando aprender.
Foi justamente num destes dias, cheia de vontade de entender um pouco mais, que saí correndo do “ginásio” para casa. Casa da vó, igual minha casa. Cheguei ofegante, procurando dicionários e enciclopédias, mas não conseguia respirar. Tossia muito, tossia tanto que meu avô correu em minha direção, segurando meus braços, me olhando nos olhos, falando como sempre falava comigo:
– Filhinha… respire fundo, bem devagar – eu tentava, a tosse não cedia. De seu jeito calmo ele chamou minha vó e apontou para o chão e para mim. Vi os olhos dela assustados, seus magros braços buscando algo no ar.
Logo em seguida chegou tio Paulo, “o meu” tio Paulo. Eu continuava tossindo, agora um pouco menos graças aos gestos de meu avô.
– Meu pai, ela…
– Vá buscar um carro de praça meu filho. Ela vai para Tubarão comigo. Yvonne, pegue outra blusa para Quiqui.
Foi assim a descoberta de que eu estava com tuberculose. Minha camiseta suja de sangue tinha ficado para trás, mas os braços silenciosos do vô Abelardo sobre meus ombros me diziam que era sério. Não tinha sorriso e nem explicações. Só amor e cuidados.
Poucos souberam que meus 15 anos começaram assim, com quase um pulmão a menos e todas as horas livres na cama….

Naquele ano meu aniversário ia passar calado. Mas minha festa de 15 anos foi “inventada” na última hora e acabou contando com algumas amigas e a família.

Talvez a tristeza estivesse ultrapassando os meus olhos um pouco mais do que eu desejasse. Mesmo eu tendo feito questão de dizer que não me interessava e que festa de 15 anos era coisa do passado, no fundo fazia parte de mim, era um sonho.

Mais um sonho de mocinha. Como o príncipe encantado e o vestido branco na igreja. Estes sonhos, que eu chamava bobos, eu também tinha. Porém a reputação de rebelde que crescia dia a dia com minha esquivez dos amigos, das festas, da escola, escondia dos próximos e distantes a menina que existia amedrontada em mim.

Usava saias longas, os cabelos sempre longos, os pés descalços. Caminhava sonhando sempre, o que fazia muita gente comentar. Para alguns eu era orgulhosa demais, nem cumprimentava as pessoas na rua. Para outros uma “maconheira” qualquer…nem vê as pessoas na rua… e já viu as roupas que usa?

Pensamentos, comentários, julgamentos, aprendi a conviver com tudo fazendo de conta que nada me importava. Feridas não devem ser expostas, devem ser curadas. Meu sofrimento era transformado em energia para sonhar ainda mais…

Naquela tarde do dia 11 de março de 1976, na casa da vó surgiram do nada uma imensa torta e tudo o mais que torna tão linda e apetitosa uma mesa de aniversário.

Entre os presentes que ganhei lembro do disco de capa preta do Pink Floyd, “The Dark Side of The Moon” e de um vidro de perfume chamado Tenderly. Ganhei o mais belo ainda de todos os presentes: a alegria de esquecer por alguns momentos que a cama e os medicamentos me esperavam. Fizemos teatrinho, interpretamos personagens da novela A Viagem, um sucesso na época.

Vô Abelardo, discreto como sempre, só apareceu na sala para cantar os parabéns e tirar foto comigo. Vó Yvonne corria para todos os cantos se ocupando de tudo como se fosse uma recepção de embaixada.

Num dos raros momentos da vida daquela casa, uma aura de paz pairava. Meus pais, meu irmão, meus tios, as amigas. E meus 15 anos.

Quando todas se foram e o cansaço já ficava um pouco difícil de esconder, ouvi a voz de meu pai:

– Terezinha, chama tua filha. Papai já mandou buscar um táxi. Assim que aplicar a injeção ela vai para casa deitar. Hoje já foi muito, ela está abatida.

Minha mãe se virou e chamou meu irmão:

– Karim… – foi interrompida pelo braço e pela voz sussurrada de meu pai:

– Não… Terezinha, chama o Karim baixinho e vai com ele caminhando agora. Eu fico esperando para ir só com ela. É melhor assim…

Um dia tio Paulo chega com um disco nas mãos e senta ao meu lado. Eu, recortando as revistas retirava delas todas as imagens que me encantavam.

– Quiqui, este disco é uma preciosidade. As músicas são verdadeiras pérolas. Tenho certeza que a Quiqui do tio vai adorar! – senti em sua voz a empolgação.

Era o disco Antologia do Samba Canção, do Quarteto em Cy. Ergui-me, lépida e alegre com o disco nas mãos e fui colocá-lo no toca-discos. Ficamos ali, ouvindo, ele entonando baixinho algumas notas.

Depois, mesmo quando o tio já tinha saído, coloquei de novo. Os dois lados. Não furei o disco, mas até hoje sei acompanhá-las, as garotas do Quarteto em Cy, fazendo todas as paradas, encaixando cada música. Virou meu disco preferido. Ao lado do disco do Pink Floyd e do “Viagem ao Centro da Terra” de Rick Wakeman.

Todos os dias eu caminhava até à antiga Pescasa, entrava no escritório de meu avô, sentava e esperava. Vô Abelardo preparava a injeção e eu entregava o braço. Cada dia um braço diferente, durante mais de sessenta dias. Aliás, foi nesta época e desta maneira que perdi o pavor que eu tinha de injeções.

Quando começou a esfriar as demandas em casa para que eu não fosse mais para a escola foram imensas. Mas eu queria tanto ir! Após muitas semanas perdidas pude enfim retornar ao meu Ginásio.

Peguei a mania de sentar atrás, bem no fundo da sala. Para os colegas era sinal de descaso, para mim, uma maneira de ficar o mais longe possível de todos e assim evitar o pior. Mesmo com o aval do médico de Tubarão, o qual me examinava duas vezes por mês, eu temia. E tremia. Mas ele garantira ao vô Abelardo que não haveria problema, que tudo estava sob controle.

Durante o recreio (a gente ainda chamava assim!) ficava observando. Lembro ainda de uma das meninas dizendo para outra: Nossa, como ela está esquisita! E outra, respondendo: Ela está antipática mesmo… deve ser porque estava acostumada a tirar só 10 e o boletim dela agora, todo mundo soube, teve até uma nota baixa em Biologia…

Nunca tive paciência para dar ou tirar satisfações de ninguém. Mas fiquei triste ao ouvir a conversa. E tudo por causa da maldita doença! Minhas colegas daquela época talvez tenham tido dificuldade para compreender a razão de eu ser tão arredia, não gostava de abraços e beijinhos, não ficava muito tempo para conversar perto de ninguém. Não queria que ficassem perto demais de mim. Eu tinha tanto medo por elas que quando chegava em casa e me deitava, chorava com medo que alguém adoecesse.

Minha mãe era dedicação pura. E dura. Rigorosa, mantinha todos os cuidados com minha alimentação, medicamentos, tudo, numa ordem militar. Me sentia agradecida e triste por vê-la sem cessar buscando o que fazer por mim.

Mas naquele dia voltei para casa e gritei com a mãe que não sabia me responder quanto tempo ainda eu teria que enfrentar aquilo. E principalmente, por que? Me revoltei por ter que ficar deitada, longe dos livros do vô e do meu vô cheio de livros e de amor. E mais uma vez corri para a casa da vó. Era assim que eu chamava aquela casa, no. 154 da rua Pinto Bandeira.

– Vô, eu não entendo. Eu procurei em todos os livros que achei sobre a tuberculose. Eles falam coisas muito ruins. E tem um monte de gente que pensa que é coisa da rua. Mas eu não fumo, não bebo, não faço nada, vô… Por que eu? Eu só tenho 15 anos…

Ele me colocou no colo como se eu ainda tivesse 5 anos.

– Quiqui, não é preciso ter mais ou menos idade para ter esta doença. E nem tem que associar com os preconceitos, minha neta!, eles são tantos e tão sem razão. Infelizmente, em nossa família, temos uma grande histórico deste problema. É triste, mas é assim. A Quiqui do vô sabe que o vô perdeu um dos pulmões assim, mesmo tendo recebido um dos melhores tratamentos da época, em Campos do Jordão…

– …o senhor ficou bastante tempo lá né?

– É… uma doença como esta nos faz perder muito, porque requer muita força para a cura. Mas ela nos ensina também, nos torna mais sólidos. Veja só, minha pequena, se o vô não tivesse adoecido e ficado em Campos do Jordão, provavelmente teria podido voltar à Suíça dentro do prazo para resgatar o diploma de Medicina e fazer tudo para que ele fosse aceito aqui! E seria Médico… mas não teria passado por tantas experiências importantes como as que vieram depois…

– … como se corresponder com a Dinah de Queiroz?

– Exatamente! Falando nisto, a minha netinha já leu Floradas na Serra?

– Ainda não…

Vô Abelardo levantou, pegou seu chapéu e colocou na cabeça estendendo-me a mão:

– Vem com o vô. Vamos à livraria do Sr. Juca comprar um exemplar. É imprescindível que você leia.

Ainda tenho comigo uma das respostas de Dinah de Queiroz, acho mesmo que a primeira… ou uma das primeiras… quando da troca de correspondência entre eles sobre o livro que ela lançara em 1939. Guardo como um tesouro. E guardo também a beleza de seu livro, que me deixou menos sozinha.

Naqueles tempos frios em tantos sentidos, um sol brilhava diariamente em minha vida. Uma tempestade de extroversão, sorrisos e brincadeiras que eu aguardava impaciente para olhar de maneira quase discreta durante os momentos do recreio. Um sol-sorriso que, cada vez que encontrava meus olhos, via minhas faces enrubescer. Eu era encabulada.

Um dia do início de junho recebi um recado de uma pessoa da família daquele que me iluminava os dias: ele queria me encontrar… e já tinha dado a data, 05 de junho… e o local… na frente do “barracão” da festa de Santo Antônio. Quem disse que eu sequer pensei em dizer não?

As roupas que eu usei naquela noite, 05 de junho de 1976, ficaram anos guardadas não somente na minha memória, mas nas minhas gavetas por anos: um conjunto de lã em tons ferrugem, cor que naquela época eu adorava. Incluindo um gorrinho…

Sair à noite? No meu estado? Ir logo para a festa maior da cidade? Com certeza meus pais enfrentaram a maior fera planetária naquele dia. Armada de algumas amigas que fizeram o coro do “…ah, deixa, vai… só hoje…”, conhecendo as minhas intenções e esperanças, a guerra foi longa mas a vitória teve grande sabor.

Fomos à novena (que mania… é trezena, não é?!) e logo em seguida eu já estava afundando o local do encontro com a frase “ele não veio, ele não vem” deixando as garotas surdas. Nem me dei conta do dia de sorte, quando no aviãozinho do “seu” Batista ganhei uma garrafa de uma bebida vermelha (uma tal de URU). Virei para uma delas e entreguei como presente.

– Nossa, que sorte… vou comprar um bilhete e te dar… fica aí. – E lá foi ela trazer mais bilhetes. Distribuiu entre todas e mais uma vez ganhei. – Pega, disse eu desanimada entregando a nova prenda. Acho que vou embora…

Mas naquele momento eu vi. Caminhando com as mãos nas costas ele chegou perto sem sorrir.

– Vamos dar uma volta?

– Vamos…

– Mas sem elas… – e naquela franqueza séria e inesperada ele conseguiu ganhar um pouco de antipatia e um apelido. Que durou!

Acho que fizemos a volta do jardim em silêncio ao menos umas quinze vezes. Sem uma palavra, pela calçada do lado de fora. Eu já andava contando as janelas, com vergonha de cada um que cruzávamos a cada volta completa. Quando vi que não tinha jeito, que acabaríamos afundando o chão e, pior, sem trocar uma palavrinha… cansei!

– Escuta, eu vou embora!

– Embora? Mas a gente não tá namorando?

– Namorando? E por acaso tu me pediste? Até agora…

– Eu pensei que a gente já estava! Mas se é assim: quer?

– Quer o quê?

– Namorar comigo.

Aquela figura magra e alta, meio sem jeito, nariz empinado, que mais tarde me explicou que não falava comigo porque estava esperando que eu dissesse alguma coisa primeiro. Porque ele também não sabia, nas suas palavras, o que conversar com uma namorada. A partir dali todos os dias nos víamos na escola.

No dia 12 de junho fomos, agora eu dentro de uma nova turma, todos para a novena dos namorados. Que meu padroeiro me perdoe, mas nunca ri tanto!! Eles eram quatro, os “piores”. Nós, as namoradas ou acompanhantes, ficávamos fazendo o possível para não rir.

A lembrancinha daquele dia, a minha eu guardei. A dele, recebi dias depois pelas mãos de uma menina muito pequena, de uns sete anos…

– Abre, dizia ela… abre que tem uma surpresa dentro pra ti. – e sorria pra mim prevendo que um dia, além de irmã de meu sol seria também minha grande amiga.

Dentro da caixinha, sob a medalha, um papel bem dobrado guardava escrito em letras miúdas: “Eu te amo”.

Eu tinha um namorado! Mas nos víamos essencialmente na hora do recreio da escola ou no final das aulas. Conversávamos, ele me acompanhava. Durante a festa de Santo Antônio ele descobrira que eu não morava mais na casa que ele pensava… e onde me deixava cada vez que me “levava pra casa”. Até o dia que ele olhou para trás e me viu seguindo em frente.

– Ei, onde é tu vais?

– Pra casa.

– Mas não é aqui? – e ele apontou a velha casa na rua do Fogo.

– Não, eu moro mais longe, do lado da oficina do “seu” Conrado, sabe?

Não preciso dizer que ele ficou apavorado por ter pensado que em outras vezes eu tinha ido sozinha pra casa…

Um dia, no ginásio, o diretor Jairo Baião, não o professor, veio de sala em sala e fez discurso: não queria mais ninguém de mão dadas ou abraçados em corredor da escola! Lugar de namorar não era ali…e ponto final!

Rimos muito. Mas foi quando entendi nos olhos de quem todos os dias me esperava, a pergunta calada: e nós? Porque com certeza era estranho ter uma namorada para conversar, conversar, mas que não deixava chegar perto… meu deus como eu tinha medo! Naquele olhar, mergulhei, entristeci, mas dali retirei a chave para abrir meu coração. E abri. Com a certeza de que no final da história ele arranjaria uma desculpa, com todas as razões, e correria para longe de mim.

Que engano! Naquele dia ele segurou minhas mãos com firmeza e disse que ” a gente ia sair desta”. Passou a ir me buscar todos os dias em casa para ir para a escola. E me levar para casa depois.

Um dia cheguei em casa com a mãe e ele já estava lá, sentado com o meu pai. Os dois conversavam como velhos amigos. Daquele dia em diante ele passou a vir praticamente todas as tardes. Trazia livros, lia pra mim, ouvia música, estudávamos juntos. Tinha paciência até para recortar papel comigo… Muitas vezes ficava até eu adormecer. Não me pedia para sair à noite e, com raras exceções, fomos juntos a algumas festas da turma.

Sei que toda sua família teve medo por ele. E eu, só eu sei o quanto tive. Mas sua família também me recebeu de braços abertos. E os deixou assim até o presente.

Inteligente, alegre e otimista, ele tinha certeza de minha cura muito mais do que eu mesma.

No mês de novembro, o clube Congresso organizava o Baile de Debutantes. Vô Abelardo me chamou e disse:

– Filhinha, este vai ser o baile da minha neta!

– Vô, mas eu…

– Você está praticamente curada, minha querida. E merece festejar. Você vai sim. Para o vô!

Tia Naná desenhou aquele vestido lindo. Todo de organdi (cinco saias!), bordado com strass e pérolas. Marisa, prima, costureira de mão cheia, materializou aquela maravilha. Vó Yvonne foi comigo para Tubarão escolher as sandálias e a bolsinha prateada, todos os detalhes previstos para combinar com o vestido. A mãe me fez todos os toques e retoques, inclusive ajudar a desmanchar o horror de penteado que me fizeram!!!

Estava tão feliz naquela noite, tão feliz! Foi realmente o baile dos meus sonhos. Todas as garotas vestidas de branco, rosa nas mãos, para entrar e se apresentar. Entrei com o pai que, miraculosamente, criou coragem e veio ao baile. Até dançou a primeira valsa comigo!

E o momento mais precioso, o momento da terceira valsa, quando ouvi aquela voz feliz:

– Eu te disse que a gente ia ganhar!

Hoje eu tenho estas lembranças entre tantas outras que ficaram no meu coração. Pessoas boas na vida a gente conhece muitas, passa por elas, passa um tempo com elas, perde-as pelo caminho. Mas deste, que durante um tempo de minha vida foi um verdadeiro sol, eu guardo um profundo carinho e um respeito ainda maior. Sem cavalo branco e sem espada ele foi quem enfrentou comigo aquele dragão.

Ninguém deveria passar sozinho por nenhum tipo de moléstia. Até uma gripe merece um amigo para fazer um chá! E, daqui do longe de tantos anos passados, penso ainda que ninguém deveria achar-se digno de julgar ninguém.

O dia de hoje é sempre o que vem após o ontem. Mas o amanhã vem depois. E é ele que traz as consequências.

 

Imagem by allison

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