Contos e crônicas

E COMIGO ACONTECEU…

Quando cheguei em Genebra sem nunca ter falado francês, é óbvio que umas das primeiras necessidades foi aprender a língua.

Entre os bilhetinhos de meu irmão espalhados por todo o apartamento com o nome dos objetos e dos alimentos, os outdoors nas ruas, os programas de televisão, as revistas nas bancas… entre todos esses métodos improvisados de aprender veio instalar-se um dos melhores amigos de meu irmão na época: Ronaldo.

Ronaldo não era só o amigo do peito. Era o mais alegre, divertido, aquele companheiro que prontamente senta-se ao seu lado pra ajudar no que for.

Na véspera de um dos meus primeiros dias de meu primeiro trabalho, como recepcionista, Ronaldo, prontamente como sempre, trouxe a solução:

– Vem cá que eu vou começar a te ensinar umas expressões, umas palavras chave, assim vai ficar mais fácil pra você!

– Poxa, Ronaldo, obrigada!

E começamos uma boa hora de treino oral e escrito.

– Repete…

E eu repetia as palavras, tentando gravar bem o sentido da reposta de acordo com a pergunta feita. Pareciam palavras engraçadas porque ele ria ainda mais do que o normal. E eu ria junto, por estar aprendendo rápido o que era mais do que necessário saber para o trabalho além dos famosos bom dia e boa tarde, muito obrigada e até logo.

No dia seguinte lá estava eu, animadíssima para colocar em prática toda a gama de expresões bem decoradas.

Wolmer, um dos colegas que me recebeu de braços abertos, veio ver como eu estava:

– E aí, Jacqueline, vai dar pra continuar direitinho? Não está com medo do telefone…

– Vai dar sim.. tenho observado e ouvido muito e ontem o Ronaldo, amigo de vocês, esteve lá e me ajudou um monte. Aprendi uma porção de respostas para as perguntas mais frequentes que as pessoas fazem aqui…

– Que bom Jacqueline… vou te fazer uma pergunta e você responde, ok?

– Ok!

Ele perguntou e eu, cheia de entusiasmo, respondi. Pra falar a verdade, se eu fosse o Chico Anísio ou o Jô Soares talvez não tivesse um efeito de piada tão perfeito. Wolmer ria sem parar…

– O que foi? – Perguntei atônita.

– Jacqueline… você já respondeu isto pra alguém hoje?

– Não… na verdade nem respondi nada ainda. Ninguém perguntou. Tá um silêncio…

– Graças a Deus – ele falou correndo – e o que mais ele ensinou?

Já não achando tanta graça tirei meu papel de dentro de um caderno e mostrei todas as minhas anotações. Quanto mais ele lia mais se espantava e mais ria também.

E eu ali, olhando feito uma analfabeta…

– Olha, esquece isto tudo aqui. Nada mesmo….

– Nada?

– Jacqueline, aqui só tem… – e o coitado estava mais do que vermelho – … só tem palavrão… sacanagem desse Ronaldo… que sem-vergonha….

Depois do espanto, vendo o rosto do Womer ter se transformado em tomate e imaginando a festa que o Ronaldo devia estar fazendo imaginando a minha confusão, tudo o que consegui foi começar a rir. E rir sem parar. Mais de nervoso do que da piada.

Womer pegou uma cadeira, sentou-se do meu lado e falou:

– Pega outro papel… olha, marca aí…. o que ele disse pra responder…. você responde …

E assim, com toda a paciência ele me deu a “verdadeira” lista.

O telefone tocou, uma das perguntas anotadas surgiu…

Olhei de o papel feito por último, li bem bonitinho e feliz.

Depois pensei: Ronaldo, hoje eu te pego!

 

Imagem by geralt

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