Contos e crônicas

DAS HISTÓRIAS BÍBLICAS

Hoje eu acordei com uma saudade enorme do meu irmão Karim. Entre um e outro afazer fui lembrando como sempre fomos cúmplices, amigos do peito. Dizem que família não se escolhe, mas se por acaso eu tivesse que escolher eu escolheria exatamente a mesma. Mãe, pai, irmão… todos exatamente como são, como foram, como desejaram ser.
Voltando ao Karim, abri uma das caixas floreadas e novinhas (joguei as velhas fora!) cheias de fotos, sentei no chão e fiquei revendo passagens da nossa vida. Encontrei muitos momentos da gente… inclusive um que resolvi dividir com vocês.
Não lembro o ano, eu morava ali na rua do Fogo (Voluntário Firmiano) e era um sábado à tarde. Ouvi alguém bater com força na porta e fui atender:
– Mala, que surpresa!
– Oi minha querida, o negócio é o seguinte: preciso de ti e do Karim hoje de noite lá no Blondin. Aqui tá o papel com…
– Mala, mas do que é que…
– A Gincana Bíblica querida… e vocês fazem “Jesus e a Samaritana”! O cenário a gente leva e se encontra lá tá?
-….mas Mala eu não tenho nem roupa.. e como é que a gente vai decorar?
Mas ele já estava longe, eufórico e confiante como sempre.

Entrei com as duas folhas de papel na mão e fui até a cozinha. Karim estava tomando café.
– Quem era?
– O Mala…
– E ele nem entrou? O que ele queria?
Entreguei o papel.
– Jesus e a samaritana? Não entendi…
– O Mala quer que a gente, tu e eu, represente isto hoje de noite no Blondin na Gincana Bíblica. Agora tu vais atrás dele e diz que não dá. Diz que não dá tempo pra decorar e que não te…
– Kika – ele me interrompeu com aquela voz cheia de carinho – o Mala não ia pedir se não estivesse precisando. Olha, vai vendo umas roupas pra ti, eu vou arranjar pra mim e a gente se encontra ali pelas seis e meia, sete horas no Blondin pra ensaiar o texto.
Me deu um beijo na testa e saiu contente com seu papel na mão.

Seis horas da tarde. Eu, toda fantasiada com uma mistura maluca de roupas minhas, era a samaritana ensaiando com um jesus imaginário no espelho. Sete horas, o clube praticamente cheio, um entra e sai de gente tumultuada. Vejo entrar um jesus alto, magro, desengonçado e com os cabelos completamente tortos. Reconheci na hora:
– Karim!
– Kika, vamos começar? A gente só tem meia hora! O Mala disse que a gente se apresenta depois da Santa Ceia…
Começamos nosso diálogo entre outros tantos de “me passa o sutiã”, “o sapato é meu”, “sai da fila” e coisas mais que prefiro não repetir.
E depois chegou a hora.

O cenário foi montado pela equipe do Mala, enfim, nossa equipe. Um fundo, um poço e um pote de barro. Era tudo o que tínhamos. E começamos nossa atuação para a plateia que preenchia todo o salão do clube Blondin e os arredores. Iniciamos nossa dura tarefa de contar a história do encontro entre Jesus e a samaritana.
Estávamos já praticamente no final da encenação, no momento em que a samaritana deveria voltar-se e chamar por Jesus. E foi justamente aí que tudo aconteceu. Num movimento em falso, completamente sem querer, bati meu nariz com toda força no pote de barro (coisa que o público não viu). A dor foi tanta, tanta, que quando finalmente consegui caminhar em cena e chamar “Jesus”, minha voz era só lágrimas:
– Jesus, Jesus – chorava eu…. e caí e de joelhos (de dor!!) enquanto ele me olhava emocionado (apavorado sem saber o que eu tinha!). Ergueu as mãos sobre a minha cabeça, falou algumas poucas palavras e foi o fim.
Escutamos as pessoas levantarem, as palmas incessantes. Depois, vieram até nós, trouxeram os elogios e eu louca para sair dali. Um senhor, bem me lembro, disse-me assim:
– Moça, nunca vi tanta emoção. A dor parecia vir de dentro do seu coração! (meu nariz, eu pensei). Deve ser muita fé!
Depois dos resultados (um honroso segundo lugar, perdemos para a Santa Ceia por causa do cenário), lá vem o Mala todo alegre:
– Meus queridos, que lindos que vocês estavam! Lindos! Mas agora, chega de muita conversa e vão lá pra mesa que vão começar as perguntas.
– Que perguntas, Mala? – perguntamos Karim e eu uníssonos.
– As 500, vocês decoraram não é?
Desta vez eu quase quebrei foi o nariz dele. Mas foi só vontade passageira. Afinal, pessoas com o coração do Mala não tem no mundo aos milhares!

 

Imagem do arquivo pessoal de Jacqueline Aisenman

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2 comentários

  • responder
    Jacqueline Aisenman
    28 setembro 2015 em 18 h 23 min

    Obrigada Renato! Fico contente com tua visita e por teres gostado! Abraço grande!

  • responder
    Renato Souza
    28 setembro 2015 em 17 h 58 min

    Adoro ler estas tuas lembranças, me faz pensar num tempo que não volta mais, numa cidade que vivia a cultura em cada esquina e que era nosso maior orgulho. Meu primo Mala (Jose Alves) sempre cheio de vida, projetos… lembra da JUM no magalhães? que tempo bom. Abraços daqui.

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