Contos e crônicas

OS PASSOS DA LAVADEIRA

 

Dona Custódia vinha sempre com seus passos lentos e seu sorriso simples. A trouxa na cabeça, as roupas batidas, ela tinha a imagem que se guarda da mulher.

Nos cabelos que se adivinhava longos, trazia um lenço sem cor; sobre a saia também descolorida, uma outra em forma de avental.

Quando falava, falava mansa e tão baixo… era preciso falar mais e mais, perguntar. Então ela sorria e se via um mundo em pedaços.

Seus passos sem pressa eram guiados pelas pernas fortes, mas cansadas, daquela que levava o peso sobre a cabeça como se levasse ali somente mais alguns pensamentos. Vinha caminhando, ora delineando a orla da lagoa, pés descalços, os calos tocando o chão; ora pisando os paralelepípedos e respirando a poeira das ruas.

Impossível tentar vê-la sem a grande e branca trouxa feita de lençóis de roupa na cabeça. Dentro, os panos que eram pedaços de gente, que eram pedaços de universos dos quais ela não fazia parte.

Levava mundos sobre a cabeça erguida. Traços salientes do cansaço de ir e vir, sob o sol. Quando ia, levava as sujeiras sem delas conhecer os nomes. Mergulhava-as nas águas da lagoa, embranqueci-as com o sabão e a areia. Na sua volta, nem recordações. O cheiro vinha novo, cheiro da dona Custódia, a lavadeira.

Perto dos seus olhos, os caminhos dos anos afundados continuavam seus ingratos percursos pelas faces, pelos lados da boca, pelo pescoço descoberto.

Mas de dentro dela, aura pacífica e terna, emanava a beleza da mulher simples conquistada pelo tempo.

Mulher sem muitos sonhos, a vida alva transparecendo nos doces olhos da lavadeira, a imagem daquela mulher percorre ainda hoje minhas lembranças.

Em mim, vai morar para sempre.

 

Imagem by Fernando Dias

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