Contos e crônicas

O VELHO CAIS

Ele está lá desde muito antes que eu começasse a formar lembranças. Seu semblante antigo faz parte da paisagem.

Intrínseca peça da também velha Laguna. É todo feito de grandes pedras e é por trás delas que se desenham maravilhas.

As cores banhando o céu, desnudando tons sob o sol, sob a lua, sob estrelas longínquas.

Seu formato lembra bem o de um portão sempre aberto às águas mansas e embarcações simples que circulam pela lagoa.

Quantas vezes sentei-me ali e o velho cais viu-me mudar de figura. De pequena criança a percorrer-lhe o caminho, viu-me adolescente em momentos de riso e de choro. Mais tarde, vendo-me adulta, deixou-me ser.

Muitos viram ali passar barcos maiores, que vinham com gente e especiarias, do interior e outros centros, para alimentar o comércio farto de toda uma época. Ali, namorados sonharam, princesas e príncipes, aventuras que somente a recordação resgata. Enquanto os carros passavam perto, a canoa do leiteiro chegava, o pescador vinha alegre com seus peixes. Os meninos atiravam-se na água para o banho de verão, o velhinho trazia a vara de pescar. Descobria-se junto ao velho cais, a vida em pedaços.

O pôr-do-sol cor de laranja, nuvens com jeito de carneirinhos, águas quietas, bravias, sempre turvas. Quando são as lágrimas que lavam as pedras, o velho cais não perdoa. É testemunha.

Às vezes eu via cinzento e juntava nesta fotografia as dores de toda a cidade. As misérias que nunca desfilaram ali por perto porque os videntes eram cegos. Só a lua cheia o iluminava e todas as outras luas o escondiam das pessoas.

Agora, enquanto escrevo aqui, sei que ele está iluminado, pleno de lâmpadas ao seu redor. Não há mais porque esperar a lua para vê-lo. Alguém colocou no velho cais uma moldura de luz , e suas águas, mais claras, estão cheias de barcos coloridos.

Só espero que não o transformem mais. Muitas vezes, o moderno consegue desvirtuar o belo. No caso do velho cais, é justo o que aconteceria.

 

 

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