Contos e crônicas

O REENCONTRO DOS MORTOS

De repente o passado voltava, as datas se modificavam e os mortos começaram a se reencontrar. Como se a vida tivesse mudado de lado e agora o lado sombrio tivesse adquirido a força de receber as pessoas para um reencontro alegre de gerações e gerações: todos os que nunca antes sequer tinham se conhecido agora se encontravam. Estavam ali, naquele lugar, todos. Ou quase todos.

Um cão pequenino sofria, ou era uma criança sofrendo? Foi pego no colo, levado ao longo dos corredores dos reencontros, lá o tratamento foi dado e o descanso sugerido. Mas aonde? Procura-se o lugar, sugere-se o lugar, aceita-se o lugar e vem a espera. E enquanto o sono chega, proveniente do cansaço, adormece-se num canto construindo a espera. Chegam outros. Outros que acordam, tiram do colo o que é precioso, ofendem, machucam, expulsam. A voz agarrada ao coração que não sabe onde estão as lágrimas, tenta explicações que não tem sentido naquele lugar, para aquelas pessoas. A voz se cala vendo a distância tomar forma, mas o coração sabe que um dia os fatos voltarão ao lugar, não há mais passado formado que dê forma a um futuro inexistente.

Começa a descida solitária em busca de outros caminhos. São muitas as ruas, descendo, descendo, ali não se sabe se é noite ou dia, talvez nem isto exista mais. Pelo estado interior talvez seja noite. Por ruas longas, adentrando bares, olhando a própria imagem em vitrines que mostram alguém desconhecido, envelhecido, pesado, feio. Mas há a lembrança da esperança e os passos continuam a caminhar.

Chega a grande rua a ser atravessada. Muitos estão ali para isto, atravessar a grande rua. Pessoas sem rosto, doentes, cansadas, todas aguardando o mesmo destino: atravessar a rua. E os carros são muitos, o outro lado apenas se vê. Tenta-se a primeira vez, mas o peso da ida é grande e não permite concluir. Volta-se. Da calçada a visão aparenta-se mais alta e segura e vê-se os caminhões carregando os mísseis, longos como cobras, tomando a extensão da rua. O pensamento que sabe o tempo imenso a esperar transporta, ou o desejo, ou a sorte, ou a dimensão… e de repente, dentro de um de ônibus seguindo no sentido inverso, pede-se a parada e recebe-se o sim. E ali, mesmo a rua longa está livre e atravessar são leves passos.

Apenas uma pessoa acompanha e então são duas. Cruzam a rua e relembram os mortos, e relembram também que não podem voltar. E seguem. Mortos morrem? Mortos podem recorrer aos que ajudam os mortos a chegar ali? É possível voltar depois da volta? As respostas devem estar implícitas nos caminhos e os caminhos têm que ser percorridos.

O local surge do nada, os corredores estão lá, o chão cinza como azulejos esquecidos. Mas algo diz que é preciso continuar. Os pés descalços sentem os passos, e cada corredor separa-se de outros corredores por pequenos intervalos. Cada vez o chão se torna mais quente, salta-se, corre-se, usa-se a ponta dos pés. Quem acompanha chora, grita que não vai conseguir. De dentro vem o incentivo. Continue! Avança! E avançam. Os pés incham, queimam, mas não doem. Adiante, o último intervalo se mostra e enormes e negros cães aguardam. É só pular e chegar. Onde? Pula-se, os cães tornam-se amáveis filhotes, não há gente. Mas há outra coisa.

A mais linda, ou talvez uma das mais lindas visões permitidas aos olhos: o que se acabou de percorrer foi uma parte do sol, tão amarelo e brilhante, a circunferência etérea e imensa entre os dois ínfimos pedaços de caminhos frios…. o final ou o princípio de uma nova chance de reencontro entre os mortos que agora têm outra vida ou os vivos que agora estão mortos.

A outra pessoa desiste, quer partir, tem dor nos pés completamente queimados. Grita-se, chama-se, volta-se uma parte, estende-se a mão. Coragem! E ela olha para trás, pessoa lacrimejante e dolorida, e vem. Chega para a visão prometida e encanta-se.

O resto faz parte do desconhecido.

 

Imagem by RalfBeck

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