Contos e crônicas

O LEITEIRO JOAQUIM

Joaquim e o barco no cais, maravilha. Sol se pondo por trás do morro do Ribeirão, o céu ficando todo colorido.

Ele sorri, alegre, ao ver os latões vazios: todo o leite foi vendido, os queijos também, e ainda vai levar encomendas pra semana.

Neste momento, sob os últimos raios daquele sol de inverno, Joaquim espera algumas crianças que virão da escola. São os filhos dos seus amigos que vieram estudar na cidade e que ele sempre leva de barco para casa.

Ouve o relógio da Matriz bater cinco horas. Mais uns quinze minutos e a molecada estaria ali.

De manhãzinha, quando ele saía da Madre pelo rio, o dia ainda nem tinha cores. Era um pedaço da noite, e Joaquim vinha pronto. Latões cheios, balaios de queijos, os meninos para ajudar. A missão bonita, dentro da longa jornada, começava ali.

Desde guri Joaquim trabalhava com o pai. Era ele quem levava as vacas pro pasto. Era ele também que ordenhava as vacas e trazia nos grandes baldes o leite. A mãe e as irmãs ficavam em casa, desde cedo preparando o leite, o coalho, as medidas pros queijos.

Lá na Madre, quase todas as famílias se ocupam assim, do leite, do queijo e da manteiga. Tudo artesanal, feito com o amor e a dedicação de quem aprendeu o ofício em família. Ser leiteiro, para Joaquim, era um orgulho. Quando, de manhã, ele chega no cais e aporta o barco, sabe todas as ruas que vai percorrer com seus carrinhos de madeira, empurrados à mão, por ele e por seus camaradas.

– Olha o leite!

O carrinho, os latões, o rosto moreno, o leite puro que vem dos campos da Laguna através das mãos trabalhadoras do leiteiro.

Joaquim talvez não saiba, nem seus companheiros, mas a profissão que eles exercem com tamanha coragem, no resto do mundo está praticamente extinta. E isto é o que torna ainda mais rica, mais bela, a profissão de Joaquim. De rua em rua, de porta em porta…

– Vai um litro ou dois, dona?

O leiteiro que pega do galão o leite com a pequena vasilha, espera o freguês trazer a jarra, a panela, e coloca ali, medido de cabeça, a quantia certa do líquido saboroso e branco.

Joaquim vê de longe as crianças chegando. Em sua memória vê ainda os dias duros, a propagação dos saquinhos de leite e dos supermercados.

Ele, seus colegas e o barco, são herdeiros de uma profissão e, como tal, são firmes. Não há madrugada que não os veja levantar; não há fim de tarde que não os veja voltar.

Enquanto existir a Madre, os campos verdes, as vacas e a coragem dos leiteiros, Laguna vai poder esperar no portão o leite fresco que outros lugares não esperam mais.

– Vai dois litros hoje, vizinho?

 

Imagem by Recordar Lisboa

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