Contos e crônicas

NOITE DE CARNAVAL

” O abre alas , que eu quero passar…”

A noite tinha estrelas, nenhum sinal de chuva, muita gente nas ruas coloridas de luzes e desenhos multicores.

Rádio difusora de Laguna, com vocês neste carnaval!

De um lado da calçada, o locutor animado ia falando da alegria dos foliões, da festa que estava para ter seu ápice dali a instantes com o desfile das escolas de samba. Um pouco mais adiante, embalados pelo etéreo do álcool, da noite e da data, muitas pessoas circulavam.

” O teu cabelo não nega mulata…”

Por toda a rua e bem mais além, as alegres músicas davam o efeito principal à festa de Momo. Cores e canções, sorrisos na folia.

Alegria pessoal! Com a rádio Garibaldi no ar durante toda a noite!

O povo ocupava toda a rua da Matriz, ia fazendo a curva pela rua do fogo, espremia-se por toda a rua da Miscelânea, ia se apertando, apertando e terminava no fim da rua Raulino Horn. Pela pracinha da Anita via-se algumas pessoas. Estavam chegando apressadas ou partindo já fatigadas.

“Se você fosse sincera, ô ô ô ô Aurora… veja só que bom que era…”

E aí minha gente, prontos pra enorme emoção? A rádio difusora acompanha com você o carnaval lagunense!

A Colombina perguntava ao Havaiano:

– Quem desfila primeiro?

– O Brinca.

– Quem brinca?- intrometia-se o turista confuso.

– Ninguém, ora. É o Brinca, a escola de samba.

Todos os bares estavam cheios, todas as almas estavam cheias de expectativa. Cada carnaval é um só e o pote tem tanta sede como o mundo inteiro tem. Sede de vida, de energia, de descontração.

“Quanto riso, oh!, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão…”

A festa é o espírito gigantesco de animação que toma o povo por inteiro.

“Eu sou aquele pierrô, que te abraçou, que te beijou meu amor…”

Rádio Garibaldi de Laguna, junto com você lagunense e com você, amigo visitante, vê passar neste momento a Escola de Samba Brinca Quem Pode! E olha lá, galera animada, vem junto todo o luxo do Bola Branca! A rainha este ano é a filha do seu Dino!

– Quem é o seu Dino?- comentava um visitante.

– Não sei… e tá vendo alguma bola branca? comentava um outro.

“Mamãe eu quero mamar… dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar…”

Carnaval em Laguna era assim. Samba, suor e cerveja, que nem na música. E tinha chorinho, fado, frevo, todas as misturas, não importava a cadência. O ritmo era sempre o da euforia.

“A estrela Dalva, no céu desponta, e a lua anda tonta com tamanho esplendor…”

– Que demora do outro bloco!

O descontraído cordão de bruxas desfilava sem compromisso pelo meio da rua. Entre elas, marinheiros, flores, piratas, gatas, egípcios, árabes, pierrôs e exemplares mil da fauna, da flora e das raças que compõem nosso planeta.

– Pergunta ali pro cara da rádio qual é o próximo.

– Eu não. Espera que ele fala.

É com a rádio Difusora, minha gente. Carnaval com o melhor acontecendo. Esperem aí, vão esquentando que vem chegando os Xavantes.

“Cordão do Bola Preta, que não teme careta e na roda do samba é bamba, quem não pode não se meta, no cordão do Bola Preeeeeeta! é bamba…”

Vem com a gente, meu povo! Rádio Garibaldi entra no samba, atravessa a avenida e vai dentro do cordão! Aí Nicolau, quem deu a idéia de trazer o bloco todinho de Minas do Rei Salomão?

– Que Minas, Toninho? Tá doido? A gente tá tudo vestido de russos, o nome é “Casamento Russo”, não tá vendo não? Minas do Rei Salomão é o pessoal do Bola Branca que tá. Tá confundindo é?!!

-Schiiii…  Fala baixo, Nicolau. Olha o povo ouvindo. Ouvintes da Garibaldi, continuem com a gente. Música, Arnaldo!

“Hoje eu não quero chorar, hoje eu não quero sofrer… deixei a tristeza lã fora, mandei a saudade esperar, lá lá lá…”

– Afinal, quem acabou de passar? Bola preta de Minas, bola branca do Salomão , e cadê o tal Xavantes?

– Desculpa me meter na conversa, dona, mas eu sou daqui da Laguna. passou foi o bloco Bola Preta, tudinho fantasiado de russo. E Xavantes, dona, são aqueles ali, ó, aqueles índios que vem vindo. Bonito né, é a minha escola…

– Ah, agora tô entendendo! Posa, é bonito mesmo!

Fiquem com a Difusora, amigos. Competência é aqui. Na nossa rádio russo não chega nem perto das minas do rei Salomão! Tá certo ou não tá Nicolau?

– É isso aí cara. O Toninho da Garibaldi tocou o maior fogo na gente. Quase que escangalha a moral do bloco.

– E quem desenhou a fantasia de vocês?

– Foi nós mesmo. Ideia de um, ideia de outro, a gente juntou tudo com purpurina, bordou lantejoula e tascou o coração no meio. Deu nisso…

“Este ano não vai ser igual aquele que passou, eu não brinquei, você também não brincou…”

Misturavam-se então as músicas dos blocos de rua, dos discos a todo volume nas casas, das bandas animadas que davam o grito de carnaval nos salões.

“Vem chegando a madrugada ô, o sereno vem caindo…”

Os palhaços deitados no meio do jardim, riam e cantavam ainda. Junto deles, serpentinas e confetes cobriam a bailarina e a menina sem fantasia. Um pouco mais longe, todo um time da seleção brasileira de futebol. Sem bola, sem traves, jogando a alma fora, suando a camisa por Momo.

“Quem sabe, sabe, conhece bem, como é gostoso gostar de alguém…”

Madrugada entrando, os blocos terminavam de desfilar. Para alguns, hora de ir para casa, vestir a roupa e ir pro clube. Ainda.

– E aí, Toninho? Amanhã de novo com a Garibaldi na avenida?

– Eu, hein? Me mandei de lá. Começo amanhã mesmo o programa “Carnaval em Laguna” na Difusora.

– Ué, mas não é um programa de músicas de carnaval?

– É…

– Mas já não tem o Leonel fazendo?

– Tinha, agora ele foi pra Difusora fazer o jornal das sete e meia.

– Mas Toninho, ele não tinha dito que não pisava mais lã?

– Tinha. Só que nós dois na mesma rádio não dá. E como o Leonel tá de saída, eu tô entrando. E te digo uma coisa: se aquele sujeito pensar em voltar, vou pra Tubarão e me emprego na Tabajara!

– Mas lá tem programa de carnaval?

– Pois é… o negócio é o carnaval…

“Tudo é carnaval, tudo é carnaval, vamos se embora pessoal. Tudo é carnaval, tudo é carnaval…”

O carnaval de Laguna nos 60 e 70 foi de ouro. Na minha memória de criança e de adolescente, os personagens sempre foram fantásticos dentro ou fora das fantasias. Hoje, Laguna tem uma nova fase de carnaval, aonde os caminhões de som aos poucos vão dividindo o público dos salões e das escolas de samba, criando ao mesmo tempo a grande festa dos foliões de rua.

Mas o importante é que em Laguna o carnaval como festa do povo e para o povo, não morre.

A alma de Laguna é carnavalesca.

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1 Comentário

  • responder
    Cynthia Zukoski Remor
    7 fevereiro 2016 em 0 h 19 min

    Parabéns amiga, lindo texto que relembra a nossa história.

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