Contos e crônicas

MINHA METÁFORA

 

À sombra de todas as luzes estive. Como era grande o torpor, abrir os olhos significou bem mais do que imaginei. Vertigens físicas e psicológicas me tomaram completamente e, por algum tempo, cheguei a pensar que não seria mais possível o retorno. Meu corpo estava lento e sem forças, minha mente divagava longe da realidade antes tão comum. As palavras não existiam, não era possível materializá-las nem de forma verbal, quisera escrita.

Neste longo período de peregrinação involuntariamente obrigatória, vesti-me com roupagens a mim não pertencentes. Adotei hábitos, criei um estigma. Virei metáfora de mim mesma. Já não me conhecia, já estava completamente ébria da falta de lucidez.

Quando se passa tanto tempo sob as águas, vivendo num mundo submarino e maravilhoso, chega-se a pensar que nada mais existe. Até que algo de mais interior comece a gritar de tal forma que se torna evidente a necessidade de vir à tona. Abandonar as águas profundas e tranqüilas, respirar o ar vindo do exterior, reaprender a nadar para reencontrar a terra.

Enquanto estive lá, naquelas águas, poucos conseguiram manter contato comigo. No meu silêncio, as cores submersas me falavam bem mais. Poucos conseguiram saber onde estive. Mas agora começam a perceber que voltei.

Olho a rua. Olho as pessoas. Ouço os ruídos, as vozes. Observo tudo. Sei que sou observada também. Não sei se serei ouvida quando começar a falar. Este universo agora tão diferente daquele anteriormente conhecido mostra-me o quanto mudei… o quanto me despojei de tudo e o quanto avancei secretamente em direção a algo que aos poucos vai tomando forma nos meus pensamentos. Peço a meus olhos que se calem, que não digam tudo, que não mostrem o que vi e o que senti.

“T’as des beux yeaux, tu sais?”

Enquanto eles forem lindos ou estranhos, posso continuar a me erguer.

Diante da luz que se espalha vinda do horizonte eterno, dois pés se fixam no chão. Um coração bate falho. Pulmões se esforçam para respirar. Mãos não sabem o que fazer.

Começo a caminhar e o corpo dói. Porque há muito eu não tinha um corpo. Sinto cada pedaço a reclamar pausa…é necessário sair das águas? Esta resposta é positiva, é preciso! O tênue cordão entre o corpo e o espírito reconhece-se em vida e me passa a mensagem: continua.

Vou seguindo devagar, ainda não sei como e com quem posso falar. Também não sei o que dizer. Lembro que há bastante tempo, quando ainda não tinha mergulhado, tinha escrito um manifesto para não crescer. Ele está na gaveta e eu cresci. Talvez hoje eu escreva um manifesto para não voltar à terra.

…não…não posso… meus pés pisam já a terra e a gaveta está transbordando.

Voltei.

 

Imagem by Unsplash

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