Contos e crônicas

MINHA MÃE

Lembrar de Laguna é como parir: há sempre uma dor mais forte que, momentaneamente, faz esquecer o depois.

Dessa cidade que tanto de mim vive, não foi somente ela a observadora. Também eu, personalidade solitária, gastei horas e anos a observá-la.

Amei-a sempre. O ódio, ao contrário, foi em geral passageiro. Laguna imensamente rica e bela refere-se em minhas lembranças, numa analogia mais extensa, ao Brasil. Tanto a ser e tanto a ser violado.

Amo os pescadores, eternos dependentes de uma independência não proclamada. Amo os agricultores, que plantam sementes de fé. Amo cada cidadão humilde, enfermo, desprovido, nascido lagunense e esquecido.

Amo os morros, as praias, as pedras. Amo os asilos construídos pelo homem ou por Deus. Amo o folclore, a história e as realidades.

Laguna amada, é a mãe que me expulsa. A mãe que me recusa o amor pelo próprio bem.

E é só porque sei disto, da certeza do seu amor de mãe, que cumpro sua ordem de permanecer longe.

Sabendo sempre que um belo dia, quando a vida cruzar a esquina, estarei fortalecida e de volta para resguardar em teto seguro sua velhice desamparada.

 

Imagem by Felippe Lopes

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta