Contos e crônicas

MENINA DE OLHOS CASTANHOS

Ela é gentil, pacata e desatenta. Veste-se de maneira comum, dificilmente acompanhando a moda. Ao contrário, seu ar de menina séria, muitas vezes contrasta com os trajes modernos e deselegantes que tentam lhe impor.

Pouco se ouve sua voz, mas seu coração bate alto e forte, confundindo-se com o rumor do mar. Ela sorri muito raramente e para raras pessoas. Observa sempre, tudo e todos.

Sob o vento sul, ela vai caminhando, pisando a areia e molhando os pés. Reza, crente que é, para Santo Antonio, Senhora dos Navegantes, São Pedro, São Judas… E nas quebradas das noites, quem duvida? Pode-se vê-la surpreendente, trajada de vermelho e negro, rosa nos cabelos, dançando desvairada a chamar o País dos Mortos.

São justamente seus olhos castanhos, comuns, que falam mais por ela. Seus sofrimentos em silêncio pelos filhos todos que vão e vêm; que a renegam, que a amam, que a odeiam. Quantos abortos, quantos? teve que fazer, dolorida e triste, para que os caminhos fossem seguidos rigorosamente nos traços do destino? Quantas dores, quantas lágrimas, ela guarda em si mesma sem demonstrar?

Que importa o fato de terem passado trezentos anos desde que alguém lhe deu um nome? Ela ainda é uma menina, frágil e doce. E seus olhos castanhos, cor da terra que lhe é um pedaço, veem tudo.

Ela já vestiu cintilantes vestidos de baile, já foi dama de uma corte interrompida. Vestiu-se de cinza e portou um fuzil. Nas festas e nas guerras, ela mesclou vitórias e sangue.

Sensível menina, vulcão de mulher. Avó plena de meiguice, bruxa má. Só seus olhos são sempre os mesmos. Os olhos castanhos, fixos e profundos.

Seu nome é Laguna, tem mais de trezentos anos, algumas rugas, algumas dívidas, amor excessivo, grandes cicatrizes.

Na última vez em que a vi, ela estava de olhos fechados.

 

Imagem by Aurelio Schmitt

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