Contos e crônicas

ME ENCONTRE AMANHÃ

– Me encontre amanhã…

– Não vai ser possível. Tu achas que pode ser, se tenho que partir ainda hoje ?

– Mas nós precisamos conversar, precisamos trocar idéias, só que hoje não pode ser…

– E… Não sei o que dizer. Possível, possível. Não nos repitamos. Se pensarmos apenas em eventuais possibilidades jamais voltaremos a nos encontrar.

 

 

 

– Lembra de ontem ? Era hoje. E nesse instante vivemos o discutido amanhã.

– Eu sei. Vamos, vamos caminhar, assim conversaremos melhor.

– Sabe de uma coisa, sempre que alguém me fala em deixar para depois ou para amanhã, penso logo : e se eu não estiver mais aqui ? Daí decido sempre pelo dia de hoje…

– Não precisas me olhar desta maneira. Não vou acusar tua vida de aventuras, como todos. Acho, às vezes, que tu és quem sabes viver melhor. Não tens um lugar fixo no espaço ou no tempo. Como te sentes, sendo assim ?

– Quanto ao espaço e ao tempo, não me são importantes. Faço de conta que nasço com o sol todas as manhãs. Aí faço um reconhecimento do lugar onde me encontro, dos atos que tenho cometido e parto adiante. Há épocas em que, quando desperto, tudo o que vejo a minha volta é escuridão : são às vezes em que me acordo durante a noite !

– Durante a noite ? E não te sentes perder ?

– Sinto… mas já me acostumei ao acaso e esses também são acasos. Levanto-me, tento recordar algo que me permita seguir, reúno forças e levo meus olhos a enxergar mais longe. Mas isto é tão raro !

– Comigo tudo é tão diferente ! Quando me acordo, sempre sei onde me encontro. As coisas que tenho então a fazer são as mesmas que fiz no dia anterior, no mesmo horário, para as mesmas pessoas… há horas em que penso enlouquecer pela rotina. Mas que seria de mim num mundo como o teu, se nada mais que isso sei fazer ?

– Não sei… ! Mas será possível que em ti não vigore ao menos um fio de aventura ? Não corre em teu sangue o gosto pelos riscos da vida ? O que impele o medo a reinar em ti como se fosse ele o eterno soberano da tua personalidade ? O senhor da tua alma, o que te faz vaguear não pelo infinito, mas pelo finito… ah, tudo é tão estranho… Vem comigo que te mostrarei como se dominam as rédeas das próprias veias…

–  Agora… não sei… quem sabe amanhã ?… quem sabe se teria coragem ?

– Amanhã… ora, mais tempo para que ? Mas que tolice esperar ainda mais pela coragem. Tu és superior, tu és a tua coragem. Por quem esperarás então se nada mais resta ?

– Pela liberdade…

– Liberdade… ? Que liberdade ? Não te sentes livre, então ?

– Não é a prisão que sinto… é que interligada ao meu dia, está a minha vida, as coisas que faço…

– Ou que te obrigam… ou que te obrigas, a fazer…

– Não é bem assim !

– Tens certeza ? Olha que tua vida é cheia de “deixa pra depois”, “vamos fazer isto amanhã”, “ainda não é hora”. Quem pode dizer de ti ou para teu entender, quando é chegado o momento ideal para algo ou alguém ? É preciso correr… é preciso partir em direção à sorte. A sorte também é um acaso. Pensas que ela viria bater em teu ombro, pedindo-te para acompanhá-la ? Risos, risos e mais risos dá-me vontade de libertar agora. Que tens nesta cabeça que eu não tenha ?

– Talvez o senso de pertencer. Ao mundo, às pessoas, a mim também. E mais do que tudo, pertencer a uma vida. A que vida pertences tu, senão fragmentos daquelas que te são jogadas como migalhas de alimentos ?

– Migalhas ? Que deu em ti ?

– Sim, migalhas. Nada tens de inteiro, de concreto. Não te sentes com a necessidade de parar, de encontrar algo que te complete ? Quando é que te colocarás frente a frente com teu próprio semblante ? Quando te fixarás num ponto do espaço ou do tempo ? Não há de querer teu coração que tu passes toda tua existência a flutuar… Quando será o dia, esse dia que nem tu sabes como esperar ?

– Amanhã, quem sabe…

– Ora, quem vejo… por onde andastes ? Dizes que sou eu a andar com a vida em eterna aventura e… pronto ! De repente, desapareces ! Sabes que te procurei em tua morada ?

– Sou hoje, quando cheguei. Mas não percas mais o teu tempo a tentar achar-me lá, porque dificilmente me encontrarias. Eu parti…

– Partistes ? ! Partiste para onde ? Que milagre te ocorreu ?

– Não posso dizer que segui teus conselhos. Mas eu os ouvi e eles além de me marcarem, feriram-me. Não parti em busca do que anunciaste, fui à procura de algo que preenchesse o vazio no qual me via morrer lentamente…

– É engraçado como agora nada tenho a dizer-te. Cala minha boca, sentir tanta segurança exalando de teus poros. Antes, era eu o livre. Tu, tinhas como prisão a rotina do teu viver. Hoje, quando partiste para trilhar os caminhos que me são tão conhecidos, já sou a criatura presa. Sou uma vida prisioneira da própria liberdade, de tanto espaço e tempo quanto posso usufruir. Hoje, trajo as vestes da consciência…

– Não posso crer… ! O que houve contigo ? Onde se encontra quem antes me falava e fazia mexer a solidão e as entranhas ? Que és tu que ora vejo e não consigo decifrar ?

– Sou tão somente a extensão daquele ser que conhecestes um dia. Esta mesma continuação que um dia fará parte de ti também…

– Não posso mais ficar. Sinto a febre da partida me invadir. Mas diga-me, antes que me vá… quando poderemos marcar um encontro para que possamos trocar idéias, para que nos conheçamos melhor ?

– Deixa para amanhã… amanhã quem sabe, nos encontraremos.

– Amanhã ? E quando será esse amanhã, se hoje mesmo este dia já o foi ?

– Será um tempo indeterminado no espaço. Um amanhã no qual nos veremos com os olhos de amizade ou estranhos, mas que será sempre o primeiro, o último, o único dia para nos encontrarmos.

– Então… até amanhã !

 

Imagem by geralt

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