Contos e crônicas

HOTEL RIO BRANCO

Desde que posso me recordar, o Hotel Rio Branco é o mesmo: o prédio da esquina, velho, acabado, com a pintura gasta, os resquícios da bela arquitetura escondidos sob a fachada com ares de abandono.

Pela rua da Praia, a Gustavo Richard, as construções antigas posam lado a lado a algumas mais recentes, abrigando quase todo o comércio da cidade. Ali fica também o Rio Branco, há mais anos do que poderia lembrar, funcionando já quando mercado ainda era o antigo e o porto engrandecia Laguna, terra de bravos, terra de Santa Catarina.

Em minha época de criança e depois através dos anos, eu era acostumada a caminhar pela cidade e assim acostumei meus olhos a observar as pessoas e os lugares. Fui crescendo observando a bela Laguna envelhecer.

Pelas calçadas, olhava com curiosidade as casas e o Hotel Rio Branco sempre chamou minha atenção por me fazer ficar entre chocada e entristecida ao ver seu estado. Ele era a própria imagem da tristeza, com sua figura apática entre as cores que o cercavam.

Da calçada ao lado era possível ver o imóvel em seu interior. Algumas partes, sem forro sob o telhado, deixavam entrever pelas telhas a cor do céu. Outras, sem nem as telhas, faziam as vezes de terraços inventados.

Da única vez em que lá entrei, guardo até hoje uma lembrança forte que me fez calar. Entrei para conhecer o hotel marginal, o antro dos desconhecidos, o depósito de vidas. Entrei ávida por descobertas e saí plena de dores. Recolhi em mim tantos olhares de angústia quanto as solidões podem conter.

Os quartos sujos, pobres e cinzas. Assim posso vê-los ainda hoje. Por dentro, as paredes nem eram mais que somente tijolos abatidos pelos restos de tinta que num ou noutro canto se podia ver. Pelas frestas entre as janelas e as paredes, pequenos raios de sol desciam até o chão descoberto. Ali, o assoalho era somente pedaços de madeira apodrecida. Ao andar, as madeiras rangiam. Dentro dos quartos, pessoas esquecidas, olhares dormentes a esperar por nada.

Nas janelas debruçados, alguns velhinhos solitários espiavam o mundo. Um mundo que os rejeitara pela falta de juventude, colocando-as às margens da vida.

Talvez por isto, por comodismo do viver que não se entende ou por outras razões estranhas, o Hotel Rio Branco os recebia. Ele também era velho, era pobre e só.

Atualmente, ninguém mais se importa em fazer o Hotel Rio Branco reviver, fazê-lo pertencer novamente à paisagem da cidade. Deixam-no lá, abandonado, caindo, escorado nos ombros de uma história que não lhe conta mais.

 

Imagem by Paulo Aisenman

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