Contos e crônicas

FERNANDO, VEM VER O TREM

A estradinha que passava atrás do colégio era estreita e cheia de poeira de carvão. Não havia ali senão alguns barracos de madeira crua, todos construídos bem pertinho uns dos outros e, beirando os quintais, as leves ondulações da lagoa de Santo Antonio.

Paralela a esta mesma estradinha, ia o trilho do trem carvoeiro, escondido pela areia, circundando a lagoa até chegar ao final do bairro de Magalhães, onde ficava o respeitado Porto Carvoeiro de Laguna.

Diariamente o apito da Maria Fumaça vinha de longe avisando moradores e passantes: estou chegando, tô chegando, tô chegando, uuu… E as crianças a brincar na rua, ansiosas pela chegada do trem, riscavam a areia com nomes e desenhos.

Tô chegando, ei… os anéis de fumaça pintando o céu e a molecada a pular alegre sobre os vagões, equilibrando pernas e mãos entre uma ponta e outra dos ferros. Começava mais um passeio.

Quem vinha a pé da cidade, arriscava ficar com os pés pretos, com a roupa preta, enfim, colorido como a paisagem das redondezas: preta e cinza. Mas as mocinhas dengosas e os moços elegantes iam caminhando pela rua de cima, onde não passava o trem e, portanto, onde pouca areia preta ia parar. Mocinhas e mocinhos não podiam chegar ao centro da cidade com os pés pretos.

– Fernando, vem ver o trem!

O grito ecoava todos os dias. E Fernando largava as cocadas e saía correndo como todo mundo da sua idade. Onze anos é idade boa, idade de soltar pipa no vento sul, fazer carro de lata de óleo, roubar goiabas e pular no trem.

– Fernando, vem ver o trem com a gente!

Não dava. Pra sair a turma toda pendurada, precisava que todos estivessem somente brincando. Mas Fernando estava trabalhando também. Vendia as cocadas da tia Teresa e não podia chegar sem o balaio e sem o dinheiro. E era exatamente isto o que aconteceria se ele pulasse no trem. Ele sabia. Já tinha acontecido antes.

Ficava então meio distante, olhando de um lado a Maria Fumaça e de outro a rua de cima, com toda sorte de pessoas bem vestidas. Ele dividia ali seus onze anos. Era criança, só tinha onze anos, podia muito bem largar o balaio e brincar no trem. Mas… e como é que iria se vestir direitinho, mais tarde ter uma namorada na cidade, se não trabalhasse certinho vendendo as cocadas?

– Fernando, vem ver o trem!

O balaio cheio de cocadas ficava à beira da estrada e lá ia Fernando procurar a ponta do vagão. Segundos depois, lá vinha correndo Fernando, os pés enegrecidos, pegava o balaio e continuava a vender. Enquanto vendia sonhava, enquanto sonhava brincava, enquanto brincava vivia.

Havia a mãe junto ao fogão à lenha e o pai desde cedo na estiva. Havia todo um futuro dentro do seu travesseiro.

– Fernando, vem ver o trem!

– Tô vendo… tô vendo…!

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