Contos e crônicas

EDITE

Laguna das muitas histórias, daquelas que se conta e daquelas que se guarda. Terra de personagens que fizeram épocas, convergindo a simplicidade da vida até o profundo do existir.

Todos nós que vivemos um dia em Laguna conhecemos a Edite. Baixinha, carrancuda, sempre caminhando pelos dias e pelas noites da cidade.

Edite só foi Edite quando foi moça e morou na capital. Lá, contam que ela foi rapariga bela e charmosa, que conduzia seu caminho lado a lado a homens bonitos e ricos. Edite era Edite, da vida sim, cheia de vida.

Quando a conheci ela já era a Pandorga. Rostinho magro e enrugado disfarçando os muitos anos, cabelos finos e grisalhos, um olhar e uma voz inconfundíveis.

Não se sabe bem como ela veio parar em Laguna, cada um conta uma versão, mas o que importa é que está lá há tanto tempo, que faz parte do contexto.

Quem foi criança antes de mim já conhecia a Pandorga, mulher faceira, amiga dos bares e dos copos cheios, diferente das mulheres que todos respeitam.

Cresci ouvindo meninos e meninas gritando: Pandorga! e ela a responder com palavrões a todos, as vezes jogando pedras, correndo atrás.

E atrás da Pandorga esteve sempre a mulher Edite. Ninguém viu, ninguém via. Como ninguém podia ver também naquela figura excêntrica, a velhinha escondida.

Edite, com sua voz rouca, pedindo cigarros, um trocado, uma palavrinha. Pandorga bêbada, tropeçando, dormindo nas ruas, sem endereço.

Lembro de uma vez em que tentaram acomodá-la no asilo para idosos. Ela foi, empurrada, mas foi. Em poucos dias estava longe, de volta à vida boêmia. A vida no asilo era muito calma, muito sem atrativos para Edite.

Nunca consegui chamá-la de Pandorga. Dentro de mim sempre tive um profundo respeito por aquela senhora diferente, que ousava burlar os tabus rigorosos da Laguna. Aquela mulher encantadoramente marginal, que conseguiu ser patrimônio de toda a cidade.

Da Edite como Pandorga, tantos contariam histórias. Mas ela mesma já é uma história e se confunde em todas as suas passagens.

Uma pessoa como ela, a memória arquiva sem consulta. E o coração registra como eterna.

 

Imagem by Tuffi Mattar

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