Contos e crônicas

DUAS

Há uma mulher que dorme em mim. Dorme presa pelas dificuldades impostas pelo trabalho de parir a sim própria. Enquanto ela se move na grande morada, avista ao longe suas verdadeiras casas, vazias, fechadas, sem vida alguma, pois que ela não consegue sair da prisão onde está. Ela tinha caminhado. Dado seus passos adiante, numa tentativa de escapar à prisão perpétua. Mas o destino alcançou-a antes dito e a fez voltar. Desde então ela faz o caminho de volta. Com a lembrança de ter quase alcançado o portão de saída, ela volta. Deixou suas queixas de frio e de fome, suas dores sem compreensão. Agora atinge o máximo da dor, a dor maior, a dor de ser comparada a ela mesma, numa esfera até então desconhecida: a dos sentimentos, das emoções. Subitamente, as linhas de seu descontentamento tão entranhado se cruzam com as barras daquela prisão nunca percebida como tal. Ela se vê e descobre que existe uma beleza dentro do que é grave. E do conflito nasce a vontade de também descobrir a outra que sente. Retirar pedra por pedra que foi colocada ali até formar uma montanha. Esta mulher semi-acordada, quase se reconhece. Havia então uma foto dela na parede!

 

Imagem by sciencefreak

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