Desvarios

CORACIONAL

A impressão que sinto é que teu íntimo anda inquieto em relação a mim. Como se quisesses, de alguma maneira, me apagar da tua vida. É assim que te percebo me machucando lentamente, as palavras duras e os olhares tantos e com tanta mágoa. Sinto a luta permanente e funda na tentativa de expulsar-me de ti. E conseguirás por certo. Pois em mim, as lágrimas que descem depois de cada dor que me causas, estão tornando-me gelada, distante e rígida. Tudo isso me faz pensar que a única coisa que eu poderia fazer por ti é permanecer longe. Para que não me olhes e não me ouças, desta maneira engasgando o que ruminas para destruir-me em ti. Aceito. Ficarei distante para não te odiar e nem sequer ver-te indiferente. Espero apenas que a grande roda permita que não nos encontremos mais. Estou sofrendo.

 

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Um olhar apenas e eu te direi o quanto te quero. Um olhar que me fale as coisas desejadas e assim também vou te revelar o que se passa comigo. Mas este olhar tem que ter significados, precisa manter-se vivo. E então eu poderia fazer-te feliz, tão feliz, como vens desejando sem dizer. Só seria preciso um olhar para que o coração despertasse e iniciasse seu ritmo carinhoso. Olha pra mim, só um olhar… e eu te direi o que não podes falar.

 

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Tenho aqui comigo todos os vestígios de ti. E se para alguns seriam migalhas do invisível, para mim são fagulhas do perfeito: tua voz, teu sorriso, teus jeitos, tuas emoções que sinto e me transpassam. Cada coisa vem e se costura aos meus delírios. Sou aquela que ama em retalhos.

 

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Porque quis, saudade, gaveta secreta, abrir o porão. Tranquei ainda mais as dores pendentes no centro de mim. Porque quis, saudade, querer hora certa.

 

 

 

Alvorece o dia interior. Ao abrir os olhos e exprimir o cansaço, antevejo as horas que irei viver. Estou serena e pensativa: há pouco desdobrei meus sentimentos e encontrei certas razões. Abasteço-me delas enquanto se eleva o sol. Descobri a plenitude de existir para pertencer e não para possuir; a alva sensação de ter tanto para entregar e ser imensamente capaz de fazê-lo. Sublime idéia de fragilidade, encanto-me com o sonho de ser mulher.

 

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Olhas o mar em doce permanência, as redes que se afundam costumeiras, o vento respirando a tua sede; menino manso que a vida tragou, só em mim ainda resta de ti o que serás sempre.

 

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Pensa em mim, estrela. E pára de exibir esse brilho estranho, tão longe de mim e do que posso ver acordada. Pára de me fazer pensar que és prateada, uma bola, um desenho de criança. Já sei, já me disseram, és um sol, todo cheio de chamas, quente e iluminado pelo fogo que arde em ti. Como este que bendizemos diariamente por aqui, quando aparece ritualmente nos deixando o dia claro e quente. Quero ignorar-te a presença, retirar-te definitivamente do meu rol de romanticidades. Afinal, quero bem nem te gostar. Estrela, tinhas mesmo que ser somente um sol?

 

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Um dia eu voltarei, pescador. E então tu conhecerás minha história cheia de ti e do mar. Eu buscarei as tuas longas redes, loucuras impressas das ondas na areia, o quase tudo do verbo amar. Ainda assim, pescador, voltarei. Ruminando o passado intransigente, tirando as notas que o teu violão levava ao céu. Buscarei-te. No dia ou na noite, pescador ferido, saberás de mim sem o apito no porto, pois te sentirás surgir da morte a incandescer o peito dolorido. Nada, nada será como antes. Haverá teu violão, as bagagens todas nas costas, os itinerários pressentidos e seremos nós a canção.

 

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Pensei em ti e no poeta escondido que ainda hoje vaga o teu interior. Imaginei-te e me afligiu ver os teus sonhos presos nas celas dos anos. Se eu pudesse te presentearia com minhas asas! Mas isto é impossível porque com elas iria eu também.

 

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Eu acho que o amor não será sempre o amor enquanto os olhos negarem a paixão e nem as palavras desejarem se encontrar. Chamo de estúpido o medo de amar, mas creio nele e dou-lhe a razão. Pois só sem amar é possível sobreviver às dores da vida. Será?

 

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