Contos e crônicas

ASAS FINAS SOBRE O MAR

Foi durante a noite. Ela parecia que sonhava, seus olhos brilhavam em silêncio, seu corpo fazia parte do leito.

Enquanto uma lua muito simples, lá fora destinava seus encantos apenas para si mesma, ela parecia dormir. Era noite, e foi durante aquela noite que ela saiu de dentro dela e quase nunca mais voltou.

As imagens se formavam aos poucos, um lugar estranho, mas fascinante, algo tão intrinsecamente ligado a ela, que ficou difícil resistir. Não andava, voava. E para isto não tinha um avião, tinha asas, asas tão finas… sobrevoando um imenso mar a beijar mansamente toda a orla do verde morro.

“Morros de pedras longínquas surgiam mais perto de mim. E quanto mais os olhava, mais sentia a sensação forte me tomar inteira. Sensação forte e ao mesmo tempo de leveza, tão leve como se ao invés de asas artificiais, fossem meus próprios braços movimentando-se entre as nuvens”.

Ela voava silente, observando tudo como quem quase nem acredita que está realmente vivendo. Coisas da realidade, pensava, até parece um sonho…!

“Embaixo, meus olhos procuravam mergulhar nas ondas claras e espumantes que se debatiam na areia daquela enseada nunca vista antes. Praias desertas, pedras formando morros, nuvens que pareciam tão próximas e tão macias por estar eu passando junto delas. Eu estava voando, além de um sonho, muito além de minha própria vida, indo de encontro a um lugar desconhecido que teria depois para mim, um significado bem maior do que o imaginável”.

Seu vôo era realmente magnífico, arrebatador, tomava conta dos céus inteiros, o azul quase negro, sem nuvens e sem fim. Apenas e tão somente o limiar de um infinito. Uma loucura? Não, simplesmente um vôo.

“Como era bom sentir aquele ar que nem sequer se percebe. Como era divino deslizar no espaço o corpo movendo-se lentamente, os olhos percorrendo suavemente a paisagem. E o que se passava ao longo daquelas praias e pedras era o que me intrigava. Ia deixando atrás de meu incessante vôo, pessoas que junto comigo haviam construído aviões e mais aviões. Aviões que eram frutos de pensamentos cansados e crenças desfeitas, transformados em algo muito difícil de se crer”.

Já mais tarde, quando se perguntava que lugar seria aquele, teve a impressão de avistar um pouco adiante, uma série de telhados todos iguais, ruas estreitas, uma pequena cidade vazia. Sua curiosidade aguçada levou-a a dirigir-se par lá. Deixou a beira-mar e foi em direção ao que seus olhos viam. No fundo, dizia consigo, acho que sinto falta de gente. Meu voar está solitário, mesmo tão lindo e cheio de emoções, está solitário.

“As curvas iam se distanciando, as águas agora somente eram sombras também. Lá de cima, pude ver então alguns pontinhos diferentes. Era dia. Nem sei de onde o sol brilhava, mas a claridade mostrava a beleza do dia”.

Quando chegou lá, nada viu além do que antes vira. Os telhados viraram casas, fechadas e caladas. As ruas continuaram ruas, desertas e limpas de tudo. Não havia sinal de vida.

“A cidade que vi me encheu de curiosidade e cheguei mesmo a ficar maravilhada. Pequena, bem distribuída, seus contornos eram aos poucos delineados por mim. Um lugarejo pequenino, misto de formações modernas e características simples. Como se fosse um povoado distante do mundo e quem sabe, até da visão desta dimensão”.

Foi naquele momento, segurando tão de leve suas asas, que ela soltou de si algumas lágrimas. Tudo era tão lindo! Tudo era tão só…

No entanto, seu coração pressentiu outras batidas além das próprias e ela voltou-se, rápida, e percebeu: havia gente! Eles a estavam observando! Mas quem eram eles, com tanto receio de vê-la?

“Desci em uma das ruazinhas e percebi não haver ninguém passando, nem ao menos rumor. Caminhei silenciosa e fui bater em uma porta, a primeira que me pareceu simpática. Para mim, nada mais era surpresa e não foi grande o meu espanto quando ela se abriu”.

Eram pessoas como ela. Sorriam, foram chegando mais perto. Ninguém falava, mas eram tantas as coisas ditas que só a felicidade podia permanecer ali. Para eles ela era alguém muito especial, que conheciam, amavam, que queriam, porém sabendo que não por muito tempo. Para ela, embora a sensação fosse a de conhecê-los, a emoção era a de, estranhamente, rever amigos. Mas como, sentia ela, não posso estar revendo que antes eu nunca havia visto!

“Lindo foi encontrar aquelas pessoas singelas, as crianças sequiosas para saber a maneira pela qual eu havia chegado até ali. Olhavam admiradas minhas asas que pareciam transparentes aos meus olhos. Mas elas viam e falavam de suas cores pálidas, mas bonitas.

Eu não poderia explicar o quanto era intensa a emoção que sentia e muito menos explicaria alguma coisa sobre aquelas pessoas e sua cidadezinha. Nada perguntei sobre nada, o importante era estar vivendo. Deixei acontecer.”

Foi-se passando o tempo, minutos viraram horas, e ela viu o céu principiar a escurecer. Olhou em volta e soube que precisava partir.

“Quando me dei conta de que ainda ali o tempo também passava, vi que o sol já havia partido. Seus últimos raios oscilavam entre o morro e a cidade. Por fim, quando o anoitecer descia, tomei consciência de que a volta seria inevitável”.

Foi abraçando um por um, sentindo uma dor no peito aguda, coisa de quem não deseja partir porque sabe que talvez não volte.

“Despedi-me e pus-me a caminho, por locais que às vezes me pareciam conhecidos. Tão incrédula a sensação de olhar lugares diversos, naquele clima de retrato envelhecido, que nem sequer notei que não conseguia voar”.

Depois, afastou-se um pouco, fez menção de alçar vôo e, pela primeira vez então, teve medo: não conseguia erguer-se nem meio metro além do chão! Fez movimentos de jeitos diferentes, ensaiou corridas, moveu-se para todos os lados… e nada! Seus olhos já sabiam que iam chorar. Seu coração dividido entre o ficar e o partir, já começara a chorar. E ela sabia que não poderia permanecer ali. Por algum motivo que não conseguia explicar, precisava partir.

“Os passos que me acompanhavam eram amigos. Me consolavam pela tristeza que se abatia sobre meus ombros. Como foi ruim correr, correr, correr, tomar posição e abrir os braços e… não conseguir sair do chão…! Onde estava o vento? Não havia… e mesmo eu não tinha precisado dele antes! E sentia que precisava voar. Precisava voltar para o outro lado daqueles morros. Era o outro lado daquele mundo que me pertencia”.

“A noite aconchegou-se nos braços do lugarejo e eu ainda me encontrava lá. Procurando de alguma forma conseguir levantar o corpo e, num ímpeto, largar-me num bater de asas. E voltar então a olhar para o infinito, voando por céus e terras”.

A praia! Preciso voltar àquela praia! Com esta lembrança ela encaminhou-se para aquelas pessoas, achando que se voltasse ao lugar onde primeiro tinha visto e sobrevoado, talvez conseguisse voltar para casa.

“Mas um ruído cortou meus pensamentos e o silêncio de toda a imensidão. Os olhos assustados que me cercavam, ouviram de meus lábios sorridentes a sincera exclamação de que alguém lembrara de mim e viera me buscar. Perguntas sobre perguntas, indaguei se haveria por ali uma praia, com morros e pedras, que ficasse exatamente ou quase, do lado oposto aquele por onde eu teria chegado.

Mais leves, meus pés corriam ante a resposta afirmativa, seguidos da alegria dos que comigo estavam. Sem, havia uma praia! Linda, com imensas pedras! No fim do lugarejo, como eu imaginara…”

Gentilmente, pegaram-na pela mão e foram com ela caminhando em direção ao mar. O céu escurecia manso, do alegre azul fechava-se em negro. Ela caminhava descalça, as asas tão finas, grandes e transparentes, pendiam de suas costas dando-lhe um ar de meiguice infinita. e todos que com ela iam, admiravam aquelas asas, como se verdadeiramente fizessem parte de seu corpo.

Quando pisou a areia ainda quente, ela parou. Despediu-se novamente de todos e começou suas tentativas. Uma, duas, dez, tantas…! E nada aconteceu.

Nesse momento, chorava ela, choravam todos. Porque todos compreendiam que a noite já tomara conta do lugar e aquelas asas lindas não conseguiam voar… e não poderiam permanecer ali por muito mais tempo.

Ela não sabia o que fazer. Mas seu pensamento sabia. Dirigiu-se veloz à lembrança de seu grande amigo, aquele que lá do outro lado dos morros, dormia esperando sua volta. E chamou-o sem nem querer, com as lágrimas que pingavam tristes entre os grãos de areia.

“O barulho logo se fez mais estrondoso junto das sacudidelas de meu coração. Acima, no já escurecido céu, voava sobre as praias, um outro avião, asas maiores e mais fortes: era um amigo, por certo. Amigo que como eu e outros, preparar antes as suas asas. Não, ele não imaginava a aventura que eu estava vivendo. Mas eu lhe contaria tão logo ele pudesse ouvir minha voz.”

“Vi-o sobrevoar e seguir adiante, em direção à cidadezinha. Deveria certamente estar surpreso como eu, com aquela visão inédita. Mas sabia que tão breve ele não avistasse sinais de vida, voltaria pelo mesmo local, tentando me encontrar.”

“Calmamente, recostei-me em minhas próprias forças e continuei a conversar com meus animados e preocupados companheiros que permaneciam atentos a tudo. Eu sabia, como eles (e isto eles não me diziam), que após minha partida, dificilmente eu recordaria que fossem, ou mesmo onde estivera. Assim, mesmo considerando triste este pensamento, procurava afastar ao máximo estes detalhes, fazendo com que todos sentissem que algo de mim para sempre ficaria ali guardado. Da mesma maneira, que um dia voltaria.”

“Fixei meu olhar no negro horizonte e regressei às lembranças de como eu havia tomado a decisão de brincar, deslizando no espaço como derradeiro pássaro a viver um verão. E de como tinham sido magníficas as imagens que a Natureza me oferecera a cada instante. Foram todos esses reflexos vivos de sentimentos que me levaram em forma de sonho e me fizeram confiar ao acaso sem por um minuto apenas, me viesse o arrependimento. Era um verdadeiro esplendor de fantasias materializando-se pouco a pouco em meu espaço interior.”

Passou-se um o tempo, todos vivendo o silêncio, quando ela teve a sensação de ouvir algo. Levantou-se, procurou, sôfrega, qualquer coisa… e achou o que queria! Lá longe, vindo lá longe, vinha seu amigo, voando, com suas asas fortes e firmes, em sua direção.

“Aquele rumor não poderia ser outro senão meu amigo regressando de sua busca. Foi assim, tanta euforia, que pus-me a pular e a fazer barulhos com os outros afim de chamar a atenção.”

Ela agitou-se, fez sinais, não teve quem deles não fizesse algo para chamar a atenção. E veio ele então, pousou na areia e, com ar entre preocupado e feliz, agradeceu com o olhar tê-la encontrado.

“Aquelas asas distantes iniciaram então o que foi para mim um belíssimo ritual de aproximação. Indescritível o momento em que, já pousado na areia, pude observar a fragilidade daquele avião e a fortaleza da amizade que o guiara até onde eu estava. Não existiam palavras…”

“Descansei. Sabia que a madrugada viria e com ela os raios de um novo amanhecer. E entendia que assim que o prenúncio daquele dia viesse, seria hora de levantar vôo e partir. Partir… sem saber ao certo a verdade sobre a existência do que quer que fosse.”

Pouco tempo depois, cientes de que já seria a hora de partir, ela deu adeus a todos mais uma vez e, dessa vez, segura por aquele amigo, suas asas voltaram a ser leves e soltas e seu corpo ganhou velocidade, impulso  e, finalmente, o ar.

“O mais incrível é que eu tinha certeza de que o peso que antes não me deixara sair do chão já não me segurava. E, de tão leve, me sentia tal e qual uma pluma, suave era a áurea em que me sentia envolvida.”

Como se realmente soubesse ser a última vez, ela voltava-se para continuar o adeus, para olhar a paisagem, para querer gravar tudo dentro de si, tentando de alguma maneira lembrar tudo o que vira, o que falara, o que fizera.

Ela virou-se para o lado naquela noite e seus olhos perderam um pouco do brilho. Seu corpo mexeu-se, suas mãos tocaram seu rosto e ela acordou. Sentou-se sobre a cama, olhou muito para si, sentiu que não tinha no corpo aquelas asas.

“Não me recordo com clareza da viagem de retorno. Acordei simplesmente em meu rotineiro mundo, apenas com a impressão de ter estado em algum lugar que não seria possível explicar com exatidão, tal a maravilha de sentimentos eternizados pela recordação.”

A princípio teve um momento de tristeza, mas as lembranças felizes eram tantas e tão marcantes, que não dava tempo para entristecer.

E ela entendeu finalmente, naquela manhã onde o sol recém surgia, que havia feito uma viagem inigualável, a um lugar que nem mesmo ela saberia voltar; uma visita a pessoas que ela trazia no coração como velhos conhecidos e amigos, mas que não conhecia, não lembrava quem poderiam ser. Entendeu, que as asas finas que carregara durante toda a noite, eram as asas de sua imaginação, que de sua mente tão cheia de devaneios e realidades, vestiu-se de encanto e levou-a a voar.

Foi então que ela soube que o sonho nada mais era do que uma simples etapa da realidade, aquela que conscientemente ainda não se sabe acontecida ou por acontecer.

 

Imagem by Unsplash

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