Contos e crônicas

AS LUZES E A CIDADE

 

De fato, são poucas as luzes. Com exceção dos dias de festa, ou dos locais onde estão os monumentos, não se vê muita luz. As lâmpadas dos postes, enfileiradas num só lado da calçada, também são poucas e fracas. Talvez pudessem ser mais, não fossem os moleques a jogar pedras para ouvir o estouro e ver os estilhaços. Coisa não de criança, mas de revolta.

Mas de qualquer maneira, na minha cidade existem ruas sem luz alguma. Foram feitas muito rapidamente por invasores de terra na terra. Gente sem-terra. Nestas ruas, a luz está dentro dos casebres, pedaços de vela, velhos lampiões, fogão à lenha. Tudo lembrando o século que passou, mas tudo no novo século, o vinte, onde até a lâmpada elétrica já não chama mais a atenção.

Quando caminho insone pelas, e isto é algo que frequentemente faço, vou fazendo coleções em silêncio. Conto as janelas, os carros, os postes, as luzes acesas. E é observando o acender e apagar das luzes que vou acompanhando a transformação do dia e da noite.

Em minha cidade há um morro. Ele já foi bem mais verde e sem construções. Hoje em dia ele está sempre cheio das luzes das casas, dos faróis dos carros que sobem e descem. Me contaram por carta que colocaram mais luzes lá. Bem lá em cima, sobre seu colo verde, cruzaram estradas marrons. No meio, a velha estátua da Glória, santa dormente, de braços abertos, a ouvir noite e dia o som alegre da boate que fica ali, ao seu lado. E as luzes novas são grandes e fortes, de lá de baixo, formiguinhas olhando o elefante, vê-se agora o morro todo iluminado. Mas é assim que se vê o quanto faz falta o verde. A luz é muita, mostra tudo.

Coisa que se sente, bem mais do que se vê, são as luzes dos bares. Aqueles que varam as madrugadas, povoados de rostos sem nomes e corações superpostos. O abajur das mesas, ou a luminária no teto, são simples acessórios. Existe uma outra luz que emana: a das auras, almas perdidas, algo diáfano, amplas loucuras. Luzes de fogo, do inferno; luzes de estrelas, que também são fogo, de um céu remoto. A estes brilhos correspondem a velocidade de um cometa e a ilusão das histórias. Lâmpada de Aladim.

E mesmo as luzes nem sendo muitas, há um lugar lá na minha terra, onde durante o dia, o sol brilha incessante e à noite, bem junto ao entardecer até os veios da madrugada, um outro sol brilha e encanta, guia e espalha suas faíscas sobre homens e rochas, sobre embarcações e águas. Um farol vivo, que sustenta a terra com sua beleza impune, seu longo rio de luz e seu porte longínquo. Farol com nome de santa, Marta, há cem anos dispõe sua luz sobre o mar, evitando as rotas dos naufrágios, guiando as passadas através das horas, vagas do mar e do tempo.

São assim. Sempre assim. As surpresas não acontecem muito. Quando acontecem, são iluminadas pelas luzes de toda a cidade. Elas se tornam mais, maiores, e todos querem ver. Não importa muito o fato de ser passageiro. Minha cidade está habituada a mirar-se na lagoa e na lagoa não tem ondas. O tempo passa lento e as pessoas são figurantes.

E todas as luzes que moram lá são emanadas do âmago da terra e dos seres. São poucas, mas são abençoadas.

 

Imagem by By Márcio Flávio Ramos Moreira

 

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