Contos e crônicas

A VENDINHA DO SEU LÍDIO

A praça ficava lá, antes com o obelisco bem no centro, depois com a estátua de Anita. Cercada de casinhas antigas, as sobreviventes portuguesas, a praça reunia crianças, jovens e velhos. Lá no canto, fazendo esquina com a outra pequena praça, a da subida para o Morro do Rosário, ficava a vendinha do seu Lídio.

Falar do seu Lídio é como contar um pedaço da infância de cada um em Laguna.

Ele sempre foi velhinho. O velhinho amigo, sorriso quieto, pronto a realizar os desejos doces das crianças. Ficava lá, por trás dos óculos e do balcão, por vezes um boné, esperando a freguesia chegar.

– Seu Lídio, tem bala americana?

Tinha. E tinha pipoca, arrozinho, bala de goma, grandes latas cheias de biscoito, doce de leite, geleia de três cores, sorvete de mentirinha, maria-mole, puxa-puxa. Ah, a fantástica puxa-puxa, melado cozido e enrolado dentro de um papel que sempre vinha parar na boca da gente.

As mães compravam feijão, arroz, farinha, em quilo pesado na hora. Os filhos vinham nos intervalos da escola ou das brincadeiras, comprar pirulitos, balas e alegrias.

A vendinha do seu Lídio ficou lá por tantos anos que virou parte do cenário. E ele encostado na porta, olhando a praça e perguntando se a gente já tinha almoçado pra ficar comendo tanto doce.

Não importa hoje o que coloquem no canto da praça, as portas abertas sempre parecem levar à vendinha e ao paraíso que eram os doces que ela abrigava.

Quando seu Lídio partiu, deixou um vazio muito grande na gente. Não se entendia bem o porquê, como não se percebeu muito quando e como aconteceu. A gente simplesmente olhou um belo dia o cantinho preferido, com uma enorme vontade de chupar puxa-puxa, e a porta estava fechada.

Acabava ali um pedaço de Laguna que não volta mais. As vendinhas que se espalhavam pelo centro e pelo interior, simbolizadas pelo seu Lídio, que a gente nunca soube de verdade quem era (era um anjo bom que olhava pelas crianças?).

Hoje, as poucas vendinhas que restam estão escondidas nos bairros, ou perdidas no interior. E elas nem vendem mais as mesmas delícias que encantaram muitas infâncias.

Fica a lembrança, um pouco enevoada pelo tempo, do velhinho calado que nos vendia fatias da felicidade.

Fica o sabor, doce sobre os lábios, da alegria de ter sido criança em Laguna.

 

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