Contos e crônicas

A MULTIPLICAÇÃO DOS PEIXES

Ele era um, a rede nas costas, toco de cigarro entre os lábios. Numa das mãos, o balaio, mais redes, anzóis, a palha para outro cigarro; na outra, somente as marcas do tempo e a rapidez de molhar o dedo na boca, esticá-lo para cima e observar: o vento é sul.

Seu andar curvado em direção às pedras, já nem afundava a areia e do gelado das ondas, restava-lhe uma carícia. Mais além, o costão, as pedras, o bater forte da maré tentando alcançar o céu.

Seguia ele sozinho, não tanto… ele e Deus. Não sentia o cansaço de andar e nem o peso que carregava. Seu trabalho não tinha horário e descanso era olhar o horizonte até perder-se nele. Ia buscar o alimento, num milagre diário e necessário.

As águas do mar se confundem com sua saliva, suas lágrimas, seu suor. Já faz parte da paisagem. Não há nuvens que escondam o céu, nem ondas que ocultem os peixes, ele é amigo do vento e o vento sabe das coisas. Tempestade é raio e trovão. Na areia da praia, sono vem e vai.

Pescador de manso pensar, só tem dura a pele, sua casca. Tão dentro é o pai e o marido, o filho, o irmão. se desse pra ver seu sorriso, daria também para ver sua alma. As rugas na testa não foram feitas só pelo tempo. Foi mais o sol, o salitre, o virar dia da longa madrugada, a tarde sobre a canoa.

A mão forte joga a rede, desenha no ar a arte que brotou de suas mãos. Fios entrelaçados, estica o fio, puxa, estica o frio, puxa, o calo, as costas, o vento pelas frestas do assoalho.

A tarrafa que invade o mar tem espaço para a tainha, baiacu, anchova. Tem cantinho paro o limo, para o siri teimoso, para todas as fomes do mundo. A arte tecida em nylon, tantos mil pedacinhos de sonhos. E se os peixes vêm, sejam eles dois ou três, a esperança se multiplica. Volta a rede, lançada ao mar para tragar mais peixes.

É nesta multiplicação que a vida se retoma e segue. Pescador que pega o peixe, mata o sonho e se alimenta.

 

Imagem by Genovencio

 

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