Contos e crônicas

A MULA QUE TINHA CABEÇA

Laguna é uma cidade que não tem um só interior. Ela tem muitos interiores, cada qual com seus trejeitos e encantos, culturas diversificadas convivendo lado a lado na pequena extensão de terra que forma a Laguna de Santo Antonio dos Anjos.

Dentro destas culturas, o folclore é imensamente rico, pleno de bruxas, fantasmas, crenças, céus e infernos.

É aí que se encontram as histórias que vêm sendo contadas de avó para netos. Algumas têm se perdido no tempo, e com elas vão-se os costumes, as lendas, o linguajar, a familiaridade com a terra, com os rios, o mar e os ventos.

Destas histórias, existe uma que foi contada há anos atrás e que parece, se passava perto de Santiago.

Tio Manequinha tinha saído cedo pra ver a plantação. Tava chegando a hora da colheita e ele precisava estar por perto. O relógio ainda estava um pouco longe de marcar seis horas e lá se ia o tio Manequinha, cigarrinho de palha, coçando a cabeça.

No meio das bananeiras tinha um caminho apertado, feito de tanto andar por ali. Ia indo o caminho, ia indo até abraçar um pedação de terra onde estava plantada a mandioca.

Os morros ao longe pareciam as pernas de um gigante dobradas pra descansar. Do outro lado, de onde não se podia ver bem dali, ficava o mar. Uma vida que tio Manequinha não conhecia bem. Ele nem mesmo sabia, apesar de viver tão perto, que cheiro tinha o mar. Conhecia apenas o cheiro da terra, e esta este ele podia diferenciar com toda certeza. Como o cheiro da mandioca, que ele olhava satisfeito.

Enquanto olhava, aproveitou pra dar uma esticadinha nas pernas. Encostou-se num tronco um pouco mais adiante e ficou ali, olho na terra, olho no céu.

Estava assim, tendo uma conversinha consigo mesmo, quando ouviu uma voz vinda de não muito longe:

– Manequinha! Ei, Manequinha!

O homem arregalou os olhos e ficou procurando de onde vinha aquela voz. Olhou, olhou, e como nada viu, ficou na espreita.

– Manequinha! O Manequinha!

– Quem tá aí, é o Zé?

– Sujeito ruim de ouvido! Manequinha, tu não me conheces não, mas eu vim aqui pra te pedir um favor. Não! Não olha pra trás ainda! É, eu tô aqui, mas não posso me mostrar agora. Mas fica descansado que não sou ladrão!

– Ah é, é? E pensa que eu vou cair nesta? Se for bruxa, vou já rezando uma ave-maria e uma Salve-Rainha…Ave Maria, cheia de graça…

– Pára com isto, criatura! E eu sou lá uma bruxa? Tô só precisando de ajuda. Me escuta um pouco que eu logo apareço.

– Não tô gostando desta história… mas vá lá… eu escuto…

– Manequinha, tu conheces a mula sem cabeça?

– Mula-sem-cabeça? Cruz-credo… É um bicho sem dó nem piedade que vive aí pelos arredor assustando o pessoal!

– Ah, e isto é tudo o que tu sabes da mula-sem-cabeça?

– É… por que? Tem mais? Ah, e ela é feia! Tem cheiro de enxofre e só aparece de noite!

– Bah! Eu sabia, eu sabia! Coisa de gente, só pode ser coisa de gente! Manequinha, escuta bem. Eu vou até aí onde tu estás e nós vamos conversar melhor. Mas fica aí, não vai sair correndo…

– E porque que é que eu ia correr?

– De lá do caminho das bananeiras veio surgindo uma leve sombra, que aos poucos foi tomando forma. Manequinha estava tão assustado que nem ar entrava mais. Esperava…

Ele viu passar uma pequena mula, depois um urubu mais adiante, olhou pra baixo, viu um formigueiro, depois uma galinha. Continuou esperando. Tinha medo.

– Manequinha…

– Aiiiiiiiiiii!

Que susto tomou o tio Manequinha quando viu, distraído, aquela mula sentada na sua frente! Mas era mula como qualquer outra, e ainda por cima tinha cabeça!

– Mas… tu és uma mula!!!

– É claro que sou uma mula!

– … e fala…!!!

– Claro que falo!

– Mas que sorte de mula tu és afinal? Eu nunca tinha visto um bicho que falasse!

– Tá vendo! Pois é, eu sou uma mula, da família das sem-cabeça.

– Das o quê?

– Família sem-cabeça. Mas vai, deixa eu te explicar. Como vocês que são gente deveriam saber, o céu existe pra todo mundo, bichos e pessoas. Daí, que quando nós partimos daqui, vamos pro “outro mundo” também. E tem umas mulas bastante sapecas que adoram descer de lá e ficar pelas estradas assustando viajantes…

– Péra um pouco. Mas as mulas que o pessoal fala não são nem um pouco parecidas contigo!

– São sim. É que elas cobrem a cabeça, procuram lugares escuros e noites onde a lua esteja cheia. Então, vão pra perto de onde tem uma pontinha de raio de luar e ficam lá, se mostrando. As pessoas, mortinhas de medo, quando veem uma coisa destas ficam doidas e aí acabam pensando que viram muito mais. Mas acredita em mim, Manequinha, elas são como eu. E eu sou como qualquer mula que tem pelo teu sítio.

– Ué, que coisa esquisita… e o cheiro, e o fogo pelo nariz?

– Tudo criação que o medo faz na cabeça das pessoas. Imagina só: o medo danado junto com a safadeza das mulas… só pode dar nisso, mula-sem-cabeça…

– É… isto é de pensar! Mas e tu? Por que veio me contar estas coisas?

– Nada não, Manequinha, é que eu sou muito sozinha. Não gosto de ficar azucrinando os outros e então acabo sem ninguém pra conversar.

– Mas e o tal do céu? Tu não eras pra tá vivendo lá agora?

– Eu vivo lá. E de vez em quando desço, como todo mundo, gente e bicho, pra dar uma olhada por estas bandas.

– Então tu é morta?

– Ah, Manequinha, não começa de novo. Só porque mudei de mundo não quer dizer que eu virei monstro!

– Tá bom. É verdade. Tais igualzinha qualquer mula.

– Viu? Manequinha, vamos fazer um trato?

– Que trato?

– Eu bem que podia em vez de incomodar os viajantes, dar uma mãozinha pra ti. Quando eu vier, fico aqui pela plantação. Se vier moleque ou ladrão, dou um corridão neles! Em troca, quando tu estiveres por aqui, a gente pode ficar conversando…

– É… gostei da idéia. Mula, tu podes me contar as coisas lá do céu?

– Bem, nem tudo. Mas eu te conto alguma coisinha…

– Tá bom!

Foi assim que tio Manequinha passou a ser conhecido na região como o homem mais corajoso de todas aquelas terras. Ia e vinha, nunca tinha medo de mula-sem-cabeça.

E foi indo, foi indo, espalhou-se a lenda que o tio Manequinha era um pouco bruxo, que falava sozinho na plantação e isto só podia ser coisa de assombração.

Até hoje dizem por lá que tio Manequinha não vai morrer nunca… porque velhinho que tá, sai de noite, sai de dia, vai sempre dizendo em voz alta:

– Mula-sem-cabeça? Besteira… vai ver a que vai na minha plantação! Ela é sabida, tem cabeça e ainda por cima me conta as novas de São Pedro e do resto do pessoal que vai partindo…

 

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