Contos e crônicas

O VELHO DAS CALÇADAS

Talvez o velho lá das calçadas nem fosse tão velho quanto parecia, lá encolhido sob a velha e surrada coberta que mal o cobria. Nem mesmo sei quantas noites ele fizera daquela calçada na frente daquele prédio o seu quartinho de dormir. Algumas vezes passei por lá, entre seis e sete horas, já noite ou anoitecendo, e o via do mesmo jeito: uma sacola feia e muito usada, o cobertor e ele. Mais nada.

Pensava nele todas as vezes em que fazia o trajeto para casa, tentando descobrir o que o havia levado até lá, tão solitário e encarquilhado, perdido em seu mundo, pousando volta e meia os olhos em um ou outro que por ele passavam.

Teria família? E se tivesse? Seriam eles desumanos por deixá-lo ali sem nenhum aconchego ou teria tido ele atos tão desalmados que fizeram com que a família dele se esquecesse? Teria o que comer todos os dias? Seus ossos apontavam o pouco visível de seus braços… e me diziam que não…

O velho ser prendia meus pensamentos como muitas situações caóticas prendiam, lancinando meu coração com as dores mais cruéis e atormentando a minha mente com o a dor do mundo, a dor imensa e não alheia, nunca e jamais alheia. Crianças, idosos, adultos, jovens, qualquer idade. Abandono, violência, fome, drogas. E uma impassividade que persiste em nos afligir como se fôssemos sempre o outro, nunca o sofredor.

Enquanto o velho das calçadas esticava dolorosamente seu braço esmolando, outros que tinham talvez sua idade governavam países e empresas, violentavam crianças, mulheres e contas bancárias. Enquanto a fome do velho das calçadas ia aos poucos crucificando seu corpo, sua mente, seu presente e seu passado, todos os passantes, de todas as idades, pouco a pouco, iam morrendo de inanição.

O velho das calçadas, hoje, agora, quando escrevo estas linhas, provavelmente deve estar morto. E eu? E nós? O quanto ganhamos da vida nos últimos minutos? O que fizemos deles? O que?

 

Imagem by jackmac34

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