Contos e crônicas

O SILÊNCIO QUE NÃO É DE OURO

O silêncio revela muito mais do que qualquer palavra. Eis aqui uma frase já dita centenas de vezes e com centenas de formatos diferentes. Tudo para explicar, ou quem sabe para não explicar, o porquê o silêncio “é de ouro”…

De acordo com um dos verbetes do Houaiss, o silêncio seria “privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever, de pronunciar qualquer palavra ou som, de manifestar os próprios pensamentos etc.”.

Para muitas pessoas o silêncio serve como descanso. Para outras, como desculpa. Para outras ainda, como um meio. E assim vai…

A primeira vez em que prestei realmente atenção no que era silêncio foi em 1988. Estávamos em dezembro, era minha primeira visita à Europa, o inverno se fazia frio para a catarinense recém saída da primavera e dos braços familiares. Tinha vindo, com minha filha de 4 anos, visitar a avó e o irmão, há alguns anos sem ver, a saudade já chegando aos seus píncaros.

Meu irmão, com seu coração de rei e sua cultura impecável, me levava a cada canto da cidade, tirava aos poucos dias e dias de férias e íamos fazer pequenas e saborosas viagens: Itália, França, Suíça, Alemanha… um vasto continente, uma história imperativa e uma cultura ímpar. Eu não tinha palavras… (e que pena naquela época não haver ainda aparelhos numéricos… gastei uma barbaridade de filmes!).

Um dia, fomos fazer um primeiro passeio sobre as montanhas. Com um grupo de amigos nos dirigimos de trem até o local, fizemos algumas caminhadas, brincadeiras na neve (ver minha pequena Sabrina toda “embrulhadinha” no meio daquele branco, rindo e feliz, tenho a imagem “sonora” ainda comigo) e por fim fomos em direção das “cadeirinhas” para subir (como se a gente já não estivesse alto o suficiente).

Na nossa “cadeirinha”, estávamos Sabrina e eu. Quietas. E o mundo estava calado. Olhava para todos os lados e via o branco. Muito branco. Algum verde. E muito, muito branco. E um silêncio, um silêncio como nunca havia ouvido antes. Não o silêncio impertinente das pessoas que se calam para nos incomodar ou porque se sentem incomodadas por nós…. Não o silêncio que a noite traz e que em sua intermitência permite ruídos de carros e de gente. Um silêncio magnífico.

Até hoje, quando leio sobre silêncio, quando se fala sobre silêncio, lembro daqueles minutos naquela montanha…. Lembro daquele silêncio. E sei que lá havia alguma coisa de muito especial que também não achei mais em lugar nenhum. Mas eu não buscava respostas… e hoje tampouco… Seja! Que cada um tenha o silêncio que quiser!

 

Imagem by Lucinei Stadnik

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta