Contos e crônicas

ENCONTREI DUAS ARANHAS

Hoje encontrei duas aranhas passeando dentro de casa. Bem distantes uma da outra. E bem diferentes uma da outra. Aliás, uma nada a ver com a outra. Numa dei uma chinelada porque não teve jeito. Com a outra bati um papo breve, na tentativa de convencê-la a deixar a o recinto. Acho que ela entendeu. Estava meio eufórica, mas logo deu um jeito de cair fora. Fiquei com a sensação bizarra de que um diálogo tinha acontecido e ao mesmo tempo não tinha.

Mais tarde, na rua, dentro do carro, de longe meus olhos alcançaram o que adivinhei ser uma cena que eu não ia gostar de ver. Me espantei alguns minutos depois com a rapidez com a qual meus olhos fizeram abstração total do evento. Vi e não vi. Passei do lado sem ver. Tudo foi acontecendo em câmera lenta, como num filme, eu passando de carro, pelo lado, as coisas acontecendo, ali, eu não vendo, eu sabendo, meus olhos vendo, não registrando, (onde é mesmo que vão parar estas coisas quando faço abstração deste jeito???) só passando.

Alguns minutos depois, dentro de uma conversa, ouço toda a fase de um diálogo sem ouvir uma palavra sequer. Ou até mesmo ouço. Mas não entendo. É como se fosse uma outra língua, uma língua que não compreendo. Não consigo então prestar atenção, fica tudo aéreo. E desligo.

Não subo paredes, não construo muros. Mas aos poucos vou me subtraindo do horizonte. Toda manhã há um astro que se ergue em algum lugar para dizer que é dia. E eis que começo a fazer a conta ao contrário. Na realidade não começo. Estou quase terminando as contas. E nas minhas contas certas regras não têm exceções.

 

Imagem by Katie Tegtmeyer

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