Contos e crônicas

… E FOI GOL DO BRASIL !

Copa do mundo…copa do mundo…! E pensar que dizendo só isto, nem é preciso explicar do que se trata. Futebol, é claro! De quatro em quatro anos, aficionados e outros tantos se reúnem, vestem a camisa, tornam-se parte do time do seu país. Uma forma virtual de patriotismo, aliás, a única que quase consegue ser unânime.

E neste acontecimento que se registra na memória dos apaixonados pelo esporte e mesmo dos que sequer sabem o nome de um jogador, há uma coisa inevitável: o resultado final. Melhor dizendo, “a final”, aquela… que faz o campeão ser campeão e o segundo ser somente ninguém… ou nada.

Muitas vezes os resultados, doces ou amargos, são engolidos não tão naturalmente. Mais ou menos como quando um jogo termina com aquele sabor mais azedo do que arroz esquecido em cima do fogão.

E não foi uma final, mas um simples jogo, que deu início a esta história. Corria 1982…

Joselino tinha ultrapassado a curva dos sessenta há algum tempo. Cabelos ainda severamente conservados, barriguinha cultuada, vivia sozinho. Nunca tinha pensado em casar, não gostava desta coisa de dividir tubo de pasta de dente e geladeira. Mas era cheio de amigos. Generoso, alegre, companheiro, estava sempre pronto para qualquer eventualidade.

Tinha algumas paixões: coxinha de galinha, mulher de pernas grossas e claro, futebol. No seu caso, adoração por futebol. Acompanhava os jogos de cada campeonato, nacional ou não, como um fã de música aguarda um concerto. Conhecia os jogadores, os times, os técnicos, as cores dos uniformes, os hinos. Na roda de papo ou de samba, com ele sempre dava futebol.

Mas, mesmo tão acostumado com os feitos e as desfeitas de tantos times, tinha uma coisa que ele não conseguia de jeito nenhum: ver jogo de Copa do Mundo acompanhado. Tinha que ficar em casa, sozinho, o nervoso era grande demais. Em casa podia fazer o que os outros não podiam ver. Comia pipoca doce ao mesmo tempo em que devorava suas coxinhas de galinha; bebia todas as cervejas que conseguia estocar, nunca esquecendo de dar uma golada naquele licor que a D. Neide fazia para ele e daí… difícil correr pro banheiro na frente do povo. Principalmente quando o adversário, inimigo cruel e, certamente, mercenário, avançava sobre o pobre goleiro, indefeso defensor da Pátria! Sozinho era mais tranquilo, comer, torcer, beber, torcer, e depois sair para fazer a festa. Ou xingar. Ai, ai, ai, o resultado…

Joselino torcendo pelo Brasil. Ô time bom, melhor que o de 70, meu Deus! É desta vez que a gente vai ser tetra… daqui a pouco o meu coração explode de alegria… o Brasil ganhando da Argentina! Nem quero comer…aonde tá minha cerveja?… péra aí, olha lá, olha lá…olha lá… goooollll! Gooooooolll do Brasillllllll!!!!!!!!!!!!

Foi num sábado que o Zé entrou para esta história. Junto de um gol, junto de uma vitória do Brasil. O jogo animado, os jogadores pulando, toda a torcida se abraçando, os gritos de alegria chegando da rua! E ele estava tão entusiasmado e feliz, que não percebeu que sua vida iria mudar naquele momento.

Eu o conheci quando estava trabalhando perto do “Grande Portão”. Estava agitado, meio desorientado, perto dos outros. Gritava o tempo inteiro que aquilo ali era uma barbaridade, uma brincadeira de mau gosto e queria saber quem tinha sumido com a televisão. Fazia mil sinais com as mãos, tentava de todos os jeitos conquistar a atenção de alguém. Dele só se ouvia uma coisa: cadê a TV, bota no jogo!!!!!!!!!!!!!!!!

Fui me aproximando e falei calmamente:

– Bom dia senhor, como está se sentindo?

– Que qui é? – respondeu ele sem dar a mínima atenção e continuando a gritar por sua televisão. Virou-se novamente para a frente e, ignorando-me simplesmente, coçava a barriga e a cabeça ao mesmo tempo.

Toquei de leve nas suas costas. Ele voltou-se indignado.

– Qui é? Me deixa!

– Senhor, sou uma das recepcionistas daqui. Vejo que parece um pouco desorientado, não deseja conversar um pouquinho?

O velho sorriso apareceu sob o bigode.

– Moça, por que não disse logo? Escuta, eu tava em casa, vendo o nosso Brasil jogar e nem sei como foi que vim parar aqui. Por acaso a senhorita não sabe aonde tem um aparelhinho pra que eu possa ver o…

– … jogo? Ah, é uma pena mesmo, mas já acabou. Só que o senhor pode ficar descansado que a Argentina entrou bem: 3 x 1 para “nós”- suspiro – pelo menos neste!…

Joselino olhava-me entre desconcertado e alegre.

– Verdade? – falou ele com o entusiasmo voltando – Puxa vida, é a glória! Mas escuta, que negócio é esse do jogo ter terminado e o que é que eu tô fazendo neste lugar? Tem uma pilha de gente ali reclamando também e já briguei com um que disse que o Brasil perdeu pra Itália, você veja só, se esse jogo ainda é na segunda…

– Olha “seu”…

– Joselino. Mas pode me chamar de Zé mesmo. Fala logo aí que eu tô ficando preocupado!

Já decidido a me ouvir, Joselino entregou-se todo orelhas. Mas quase dava para ouvir os disparos do seu coração ao menor sinal de resposta.

  • É, “seu” Zé, hoje é quinta-feira.

Bomba!!! A semana tinha passado…

– Que quinta, que quinta, dona!!! Eu não tô maluco! Posso estar alvoroçado com tudo isso, mas maluco não senhora! – quem me falava era um menino inquieto e sem vontade de saber o resto.

– Ninguém lhe falou sobre o que lhe aconteceu no sábado?

– Sábado? Sábado é hoje, ué. Eu só queria saber que brincadeira é esta. Vou acabar esgoelando o engraçadinho que me fez isto no meio do jogo!

– Olha, senta aqui um instantinho que eu converso com o senhor. É que esta semana está tudo muito atribulado. Tem chegado tanta gente que o pessoa lá de cima está encontrando dificuldades para explicar para todo mundo…

– Explicar o quê? – disse ele desconfiando, se sentando.

– O senhor lembra daquela hora que o Brasil fez aquele gol lindo, lindo, o time da Argentina tremeu!, lembra como foi emocionante?

Ele assentiu com a cabeça e sorriu levemente, mas com saudade, interessado em compreender o que se passava.

– Pois é, o seu coração… – eu tinha que falar- … bem, o seu coração não resistiu e parou…

Estupefato ele levou a mão ao peito sem falar nada, apenas olhando com curiosidade para os lados. Parecia estar olhando para algo sem nome.

– … daí o senhor teve um enfarto e veio parar aqui.

Completamente sem vontade, seus lábios se abriram para perguntar o que o coração  não queria ouvir.

– Aqui onde? – na verdade, ele  nem queria saber.

– Aqui no Céu.

– No Céu???!!! Que loucura é essa? Ah, não… não vai me dizer que… ai, a minha Copa!

– É… está vendo aquela gente toda lá, perto daquele portão? Todos na mesma situação. Pior foram aqueles brasileiros que vieram por causa do gol de vitória da Itália! Uma desgraça!

Neste instante Joselino ficou realmente parecendo um fantasma. Estava branco como um lençol lavado nas pedras de um rio. Colocou as mãos sobre as orelhas e dos olhos via-se duas lágrimas descendo.

– Gol de vitória da Itália? Meu Deus… então é verdade que o Brasil per… ai, nem quero falar… ai, minha mãe! Que desgraça, não vai ter festa no boteco! Como que é que o tempo vai passando e não avisa a gente? Ai, então… se jogou com a Itália…ai!, vai ficar sem o caneco, é?

– É,  já ficou… – respondi sem jeito, ao vê-lo tão desgostoso.

– Então faz quanto tempo que tô aqui? – perguntou ele querendo se conformar.

– Bem, faz uns cinco dias. Hoje é a decisão das semifinais da Copa. Imagina o senhor, que a Inglaterra também ficou de fora…

– O que?… Que absurdo! Meus favoritos para a final. E eu aqui…

– Nós aqui no Céu também temos uma torcida um pouco dividida. O senhor sabe, gente de tudo quanto é lugar, não é? São Pedro vive brigando conosco para não ficar torcendo por futebol, que é coisa terrena, mas não adianta. Todos dão um jeitinho de fugir e dar uma olhadinha quando tem Copa.

Joselino olhava-se de cima à baixo. Tocava-se. Olhava em volta. Tentava de toda maneira se situar.

– Sabe moça, nem tô acreditando. Parece um sonho. Olho para mim assim, desse jeitão e… eh..ô… fala aí, parece que sou um defunto?

– Não!, quer dizer, ninguém parece como se imagina lá embaixo!

– Me sinto tudo igual. Ai meu São Roque! E a minha turma de amigos? Eu não tinha família não, mas os meus amigos chegados…

– Ah, o pessoal ficou muito chateado, sofrendo horrores. Pelo senhor ter vindo, deixando eles, né… e bem no meio das festas ainda. Sabe, no seu velório…

– Meu velório!!!?

– … no seu velório, sim. Pois se o senhor está aqui, é claro que teve que passar por isto.

– Ah, é mesmo. É que fica meio esquisito a gente pensar nestas coisas.

– Pois é, no seu velório alguns não acreditavam que o senhor tivesse morrido por causa do futebol. Mas teve gente que lhe chamou de “patriota”: “Morreu por um gol do Brasil!”. E teve até quem tomasse umas a mais em sua homenagem. Com isto tudo, quase que o Joca veio também…

– O Joca? – Ele olhava desesperadamente para os lados, surpreso.

– É, mas ele ainda tá bem,  lá embaixo.

– Ah!!!!!!!!

Percebendo que Joselino estava começando a compreender e tinha gostado da palavra, continuei.

– Joselino, o patriota!

– Patriota! – sonhava o Zé – Pudera, um golaço daqueles! Não há quem resista!

Ele parou e ficou como se estivesse pensando longamente nas vias dos acontecimentos.

– E então “seu” Zé, acredito que agora o senhor esteja mais calmo, mais conformado. É melhor agora o senhor acompanhar aquela moça lá de azul que está levando aquela turma. Quando chegar no segundo andar, encaminhe-se para o segundo guichê, o de “mortes naturais” e aí basta preencher a ficha para dar entrada em um dos departamentos.

– Ihh, até aqui tem burocracia, hein?

– O senhor sabe, não se pode viver sem…

– Hum! Tá certo, eu vou. – respondeu um Joselino chateado- Olha, ainda que eu não tenha me conformado muito bem em ter… vamos dizer, partido, o que não me entra mesmo é o Brasil ter perdido pra Itália. Foi de quanto mesmo?

– Foi de 3 x 2. A defesa do Brasil estava horrorosa!

– Quer saber de uma coisa?  Sinceramente? Até que foi bom eu ter vindo pra cá por causa da vitória do meu Brasil. Porque se fosse nesse outro jogo aí que estão falando, eu ia era morrer de raiva. Daí, ia pro Inferno de tanto falar mal destes miseráveis! Ganhar do Brasil… ô topete! Com aquele time de…, ah, deixa pra lá, agora já tô no Céu, não adianta desperdiçar…

Zé abaixou a cabeça, pensou mais um pouco e depois falou um pouco sem graça:

– Moça, o povo aqui se reúne pra ver jogo de Copa ou dá pra ver sozinho?  Me fala um negócio, moça… vai dar de ver os joguinhos da final? É que eu resolvi torcer pra França…

Dá sim, a gente se ajeita. Lá no seu departamento vão lhe dar um bom quarto. E tem televisão. Mas ó… sem cerveja e sem coxinha!

– É, dizia Joselino se afastando, morrer não é nada fácil!

Pensando no quanto era bom a Terra, aonde nem se adivinhava o futuro, pensei: deixa ele torcer para a França! No novo milenário ele muda de idéia!

Enquanto ele ia caminhando pensativo e contente por pelo menos poder ver os últimos jogos, ouvi gritos atrás de mim. Virei-me e vi dois senhores numa conversa em polvorosa discutindo o assunto do momento:

– Cala a boca que o Brasil vai ser tetra-campeão, ouviu bem seu comedor de macarrão!

– Cala a boca “já morreu”! Eu vou “viver” feliz porque a minha Itália ganhou de vocês e vai ser campeã! Mas escuta, não tem televisão aqui?

  • É… não tem? E quem diabos me trouxe pra cá?
  • Mamma! Também não vim por querer vir! Que lugar é este?

Fechei os olhos, respirei fundo, enchi-me de calma e me aproximei devagar. Ai, um brasileiro e um italiano juntos, “Dio Mio”!

Ao chegar perto, sorri. Afinal, não é a toa que sou recepcionista daqui do Céu há mais ou menos uns cento e dez anos.

– Olá, senhores, estão se sentindo bem?

 

 

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