Contos e crônicas

DIVAGAÇÕES SOBRE O ADEUS

Como e por que dizer adeus? Em que momento é possível perceber que um intervalo está chegando entre os dois tempos do verbo? Ele é… ele era.. isto é… isto foi…

Eu não sei. Como também não sei e não compreendo porque o adeus não pode ser algo objetivo e normal. Que obrigação tem esta palavra, carregada até os ossos de sentimentos, de ser tão dura, tão pesada, tão cheia dela mesma?

De todos os medos que existem espalhados pela vida e pela terra, eu escolheria o medo do adeus. E pouco me importa a forma. O tempo. As distâncias. Dizer ou ouvir adeus me seca a garganta e encharca os olhos. Meu corpo se contorce de dor e dentro de mim gritos estouram meus ouvidos.

Durante a caminhada, muitos adeus são trocados. E todos eles deixam uma pequena cicatriz. Hoje em dia observo que sobre minha pele as cicatrizes parecem tatuagem, tantos foram os momentos de adeus. Cada som uma tinta, cada instante um desenho, pouco sobrou sem marcas. E como eu continuo a caminhar sinto e sei que ainda virão outros. De minha parte, ou da parte de outros que amo.

Porque também tem isto. Os adeus que tatuam a alma não são vulgares palavras trocadas entre conhecidos. São profundas agulhas de amor que marcam as despedidas entre seres que vão guardar eternamente em si o que for sentido ali, naquele instante da separação. Vão guardar porque tudo o que houve antes do adeus teve importância, foi significativo e foi vida. Cada pessoa fica, depois do adeus, com um pedaço de quem ou do que se foi.

Dar adeus é marcar-se. Dar adeus é marcar. Adeus, adeuses, até onde deu. Depois foi a partida.

 

Imagem by skeeze

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