Poemas

DA CRIANÇA QUE ACORDADA ESTÁ EM MIM

O que um corpo guarda em si além da alma suposta e do encostado cansaço?

Guarda tudo o que já foi e tudo o que espera ser.

Dentro de mim uma criança acordada procura com quem brincar.

Parece de mau humor, mas é só tristeza.

Faz caretas, birras, bate o pé, chora, diz coisas que o pensamento não tem ideia do que sejam…

Isto é o que impensado é: coisa de fala de criança…

Criança quer companhia e não quer estar acompanhada.

Esta parte, que não cresceu e não crescerá, fica ali, vezes bem, vezes não, vezes me chamando e noutras apenas fazendo indistintos sons…

Esta parte que eu fui um dia e interiormente me faz sentir como se em certos momentos ainda fosse.

Me jogo num canto e choro.

Faço birras.

Escondo a cabeça.

Me sinto só.

Grito que não quero!

Saio brincando e rindo.

Faço piadas.

Rio alto.

Me sinto protegida.

Clamo meu amor e abraço!

O que há de difícil em compreender que adulta que sou dentro de mim a criança ainda é parte que me completa?

Que esbarra em mim?

Se esbalda no que sou?

Se esquiva do que quero ser?

Se um dia eu passar quieta, olhe pra mim: talvez seja ela lhe chamando.

Se um dia eu passar pulando, olhe pra mim: talvez seja ela lhe chamando.

O corpo que me guarda sabe mais do que eu: não sou e nunca serei uma.

Apenas única.

 

Imagem by AdinaVoicu

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