Contos e crônicas

CONVERSA COM A SOLIDÃO

Ouço as vozes que dentro de mim gritam e com um gesto calmo tento acalmá-las. São as lembranças, elas que são tantas, que chegam querendo conversar, falar em nome dos que já partiram e dos outros que distante se encontram.

Aqui na escada da vida, sentada muitas vezes sinto bater à porta aquela que me traz sempre mais sensações: chama-se solidão e quando vem, esquiva-se das lembranças faladoras, pede que eu esteja sem pares e costuma aconchegar-se, espalhar-se, tomando o lugar de emoções tão costumeiras.

Silencio. Peço silêncio também. Abro a porta e deixo entrar dona solidão. Digo-lhe logo de entrada que aprecio sua companhia, mas que me permita a caneta, o papel e uma música. Não, não faça cara de zangada minha amiga. A sua outra face, a de figura negra que agarra e leva para um fundo que de tão negro nem lugar na alma tem, esta eu não quero. Não aceito. Se lhe permito a entrada é para que, juntas, nos acordemos o instante de ver passar o tempo, lento, como se fosse uma gota de suor da vida escorrendo sobre o corpo cansado.

Solidão, me deixe também as lembranças. Me deixe estas vozes doces que cantam os sentimentos inabalados. Deixe que sejam a ponte entre o agora e o não mais. Preciso tanto delas quanto de ti.

Sejamos amigas, conversemos. Respeitarei o teu fardo e tu respeitarás o meu. Não acenderemos as luzes, ficaremos alguns momentos sob as cores de uma noite sem fim e enquanto ali estivermos seremos uma.

A porta aberta te dará a liberdade de partir quando quiseres. Não te mandarei embora. Mas saberás quando ir.

Nós duas, solidão, nascemos para uma amizade eterna.

 

Imagem by Anne Marthe Widvey

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta